Leandro Cunha – Topo

Deixem as crianças serem inteligentes

Por Rosa Prista

A livre expressão é uma dimensão que não pode ser esquecida nas escolas. Foto: Divulgação

A livre expressão é uma dimensão que não pode ser esquecida nas escolas. Foto: Divulgação

Minha experiência na infância me informa que tudo o que vivenciamos pode tornar-se fonte de aprendizado e de desenvolvimento da personalidade. O primeiro nível de aprendizagem acontece nas relações emocionais primárias com os pais que é o período mais fecundo de aprendizado. A minha vivência infantil foi riquíssima entre plantas, animais, seres mitológicos, entre livros, convivendo com Monteiro Lobato e com obras orientais como as Mil e uma Noites. Não me perguntem como mas aos cinco anos estava lendo estes livros . O último muito difícil mas marcou minha vida profissional.

Cada dia tem que ser diferente do outro e devemos sempre deixar uma pontinha de curiosidade para o próximo encontro. Então, assim como a bela princesa evitou a morte trazendo novidades a seu sultão, a cada noite de histórias, meus alunos sempre tinham algo novo no nosso próximo encontro. E estas experiências eram sempre simples como a terra, as pedras, os animais, as folhas, as flores, os livros. Tudo servia a um grande projeto! É na escola que se constrói o segundo nível de aprendizagem significativa.

Podemos lembrar Jung ( 1975) e resgatar um modelo de vivência escolar esquecido nos atuais modelos racionais de prática pedagógica. Pertenço a um grupo de educadores de educação infantil no whatsapp e é cotidiano a troca de folhinhas prontas para as crianças cobrirem, completarem sem nenhum tipo de planejamento e engajamento pedagógico. O pior é que expõem seus espaços de trabalho compartilhando os projetos pedagógicos e planejamentos internos. O modelo que sugerimos é natural e adequado ao desenvolvimento onde o aluno é convidado a viver e a se organizar naturalmente. Jamais controlado. Até os limites são pauta de discussão e vivência coletiva.

É preciso denunciar o modelo atual de ensino das escolas como um dos pilares das grandes dificuldades de nossas crianças e adolescentes . A excessiva cobrança racional abre lacunas significativas a nível do psiquismo . Quero lembrar que é preciso trazer a outra dimensão – a dimensão simbólica do aprender para que o cognitivo seja reintegrado. Sem trabalhar os dois movimentos cerebrais caímos em parcialidades. Para que o cérebro possa se iluminar – forma simples de falar da neurogênese- é preciso um modelo que desafie o cérebro, que faça a criança pensar, sentir e provocar novos cenários. A pedagogia que direciona as atividades e que controla as crianças é um tóxico à inteligência humana.

No livro ‘A Construção Amorosa do saber’, de Carlos Byington, há uma passagem que repetirei aqui pela sua linda interpretação dos males que afetam nossos brasileiros. Diz ele: Devido a nossa tradição pedagógica, tendemos a repetir o que ouvimos ou o que lemos buscando a verdade pela lógica. Frequentemente fomos alunos que decoramos a matéria para fazer provas. Uns repetiram a matéria sem a vivência profunda e as esqueceram tão rapidamente quanto decoraram. Há os que guardaram e citam muito o que leram.

Muitos desses tornaram-se professores e eruditos. Alguns falam até várias línguas, leram muitos livros e são considerados pessoas de grande saber. Orgulham-se de parecer discos que repetem sempre o que neles foi gravado. Há também aqueles que aprenderam por meio de um ensino construído de forma exclusivamente racional. Não decoraram. Um tipo bastante diferente de estudante vivencia o aprendizado racional e emocionalmente como todos nós fazemos om experiências que nos ensinam os segredos da vida. Portanto o principal fator que separa a erudição da sabedoria é a VIVÊNCIA e a compreensão no processo existencial.

Depois desta linda reflexão oportunizado por um dos ícones da Psicologia Arquetípica e recentemente falecido cabe pensar como colocar na prática cotidiana esta possibilidade. E não se busca por uma opção pedagógica mas política pois em cada educador é preciso fertilizar o grande papel que exercemos.

O Brasil vive a pior realidade educacional desde que nasci. A ausência de metas e conquistas assustam qualquer educador. Eu estudei em escola pública e em época de grande repressão mas tive a oportunidade de conviver com pessoas que me ensinaram a aprofundar, a criar e a não perder oportunidades.Sempre!
Então no papel de educadora uma panela da cozinha que chamou a atenção de um dos meus alunos foi motivo de vivência e de aprendizado. Mas este olhar rápido e elaborado só pertence ao educador que por ter vivido suas próprias experiências criativas sabe o prazer de tal performance.

Esta deformação do ensino começou no século XVIII quando a ciência tomou o poder na universidade. A gravidade da separação entre o ensino e o subjetivo não foi percebida e passou até mesmo a ser exercida com orgulho como uma única verdade alerta Byington. E este poder invadiu também a categoria educacional entre formações que mais fragmentam do que unem . Então, em vez de aprofundar as áreas de graduação existentes, estamos cada vez mais criando especializações e nomenclaturas ausente dos Humano e fortalecidas pelo cartesianismo.

Então, eu acredito que os pais, aqueles que direcionam o olhar das crianças para o mundo precisam resgatar em si as doces lembranças da textura da terra, o cheiro de terra molhada, as gotas dos orvalhos onde se escondiam seres mitológicos, a força dos rios, das cachoeiras, a diversidade de vida dos animais.

Em uma experiência pedagógica trouxe um pacote de terra, sementes de frutos que acabamos de comer, panelas e perguntei as crianças incluindo pessoas com síndrome de Down e espectro autista o que será que ia acontecer. Em olhares bem significativos foram tocando, descobrindo e uma criança perguntou se aquilo era terra de verdade. E sementes de verdade…Abismada com a falta de experiência das crianças abusamos do material. A terra em pó, a terra molhada, a terra colorida, a terra que dá base e fecunda novas possibilidades.

O material virou projeto e a palavra TERRA centro de interesse de tantas possibilidades. A terra é material arquetípico, material que traz a tona a base de nossa existência. A vivência com a terra permite a expressão da essência, formação vincular com nossa ancestralidade e vivência além do EU para a vivência do NÓS.

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