Leandro Cunha – Topo

Hiperatividade é sintoma ou doença?

Por Rosa Prista

A relação humana formada entre a maternagem e a paternagem são a base para o pleno desenvolvimento infantil.

A relação humana formada entre a maternagem e a paternagem são a base para o pleno desenvolvimento infantil. Foto: Pixabay

Dizem que para se escrever algo que tenha validade o tema deve partir de algo vivenciado. Ganhei o rótulo de hiperativa nos anos 70 quando tinha 12 anos. Submetida a uma terapia medicamentosa com anfetaminas – moda na época – que não provocou maiores prejuízos porque havia uma família cuidadosa e inteligente e apoio de professores “vivos” à minha volta. Digo “vivos” porque é preciso ter uma escola que desafie e mostre a beleza de aprender, fato que nos dias atuais raramente encontramos este cenário.

Esta temática num mundo baseado em explicações rápidas, em produtos e soluções imediatas parece pertinente, pois muitas crianças estão tendo seu destino desarmado pela indústria farmacêutica. A orgia de discussões sobre o tema é desafiador e o número de crianças medicadas em pleno processo de desenvolvimento cerebral é assustador.

Precisamos compreender a formação de quadros hiperativos a partir do desenvolvimento humano. Buscar as origens da formação do comportamento hiperativo compreendendo o sintoma hiperatividade na complexidade que é todo ser humano.

A busca epistemológica pelo tema vem (re) discutir o que tornou-se simplificável: medicação de crianças em tenra idade quando mediações terapêuticas e familiares eram caminhos ricos de significação; avaliação de pessoas por um simples questionário, subjetivo, aberto e com duplos significados; diagnósticos idênticos para contextos adversos; ausência de diagnósticos diferenciais para superdotados e pessoas portadoras de sofrimento psíquico; tratamento exclusivo da criança sem a participação dos pais e educadores em outras possibilidades terapêuticas.

As palavras hiperatividade, déficit de atenção, comportamento opositor passaram a ser freqüentemente utilizadas no momento atual. Siglas como ADD –Attention Déficit Disorders, DAS –Síndrome do Déficit de Atenção, DADH – Déficit de atenção e distúrbio de hiperatividade, TDADH – Transtorno do Déficit de Atenção e Distúrbio de Hiperatividade , DA/H – Déficit de Atenção e Hiperatividade ou ainda TDAH/I – Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade são citações constantes em livros, revistas, aulas, conversas entre pais e profissionais. Em qualquer âmbito – escolar, familiar, comunitário temos sempre alguém da família ou conhecido com estes problemas. Podemos no indagar o que estas questões querem dizer sobre o momento atual.

Parece que todas as crianças desatentas, desobedientes, peraltas, desorganizadas, instáveis estão paulatinamente sendo transferidas para uma categoria diagnóstica de TDAH que segundo a Organização Mundial de Saúde, 5% de qualquer população é portadora de TDAH/I.

Temos de modo geral duas polaridades de opiniões: de um lado os especialistas que vêem a criança como a portadora da doença, inclusive confundindo o sintoma hiperatividade como TDAH/I – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Se a criança é a responsável então ela deve ser medicada e a ritalina é o medicamento mais falado no momento. Na outra polaridade a criança é vista como absorvendo a falta de atenção, tempo e significação da própria escola, da própria família e porque não dos próprios profissionais que lidam com as chamadas pessoas hiperativas.

Nem um contexto e nem outro podem ser considerados adequados pois primeiro temos que focar na pessoa que está portadora de comportamento hiperativo, desatento ou diagnosticada como TDAH/I porque antes da medicação eu tenho que compreender como o cliente – a complexidade interage no meio, como contextualiza as possibilidades e limites e como constrói o conhecimento do mundo.

O que não posso perder de vista é que a primeira forma de me tornar humano é na relação com humanos, portanto o meu processo de “humanizar-se” está vinculado a forma como os adultos cuidam de seus filhos. Só por este item, ninguém está destituído desta construção. Também é preciso marcar que numa sociedade onde os valores de Ter falam mais fortes do que os valores do Ser, tudo que for imediato e prático é muito mais rapidamente absorvido do que processos terapêuticos onde a família é inserida para rever suas atitudes.

O mesmo comportamento serve para as escolas brasileiras que a cada dia perdem mais a significação do ato de educar, entupindo as crianças com informações que não são construídas com elas. Resultado: formamos um ser humano robotizado, sem contato com suas questões interiores, sem uso de sua intencionalidade, sem o prazer de sentir a construção própria e sem formatar a capacidade mínima de agir com autonomia . Todos estes dados sobre a construção interna de uma pessoa eram subjetivos na ciência cartesiana e portanto não captados objetivamente. Hoje através dos estudos das neurociências reconhecer que somos interdependentes entre o que fazemos e o que sentimos e que a troca relacional e afetiva afeta de forma profunda a formação bioquímica cerebral são contextos aceitos.

O empobrecimento humano atual tem levado a formação de comportamentos imaturos . Um deles é colocar no outro ( nas outras pessoas!) o que é nosso. Numa era cibernética o espaço do toque, do olhar, do abraço, do diálogo, do brincar, do gozo, ou seja a linguagem corporal foram substituídos por uma linguagem virtual.

O grande risco é que a linguagem corporal não é opção: é condição de desenvolvimento humano. O ritmo frenético do dia a dia, a superestimulação das crianças, o acesso indiscriminado de vídeo-games, jogos estimulantes de atos agressores e a de auto-agressão, os programas virtuais que abrem dezenas de janelas virtuais sem tempo de processamento, celulares que fazem tudo pela criança estimulam uma adaptação cerebral unilateral – o tempo rápido, estimulante e omitem o tempo lento, tempo de interiorização, tempo do silêncio, necessário a reorganização vestibular e temporo-espacial.

O tempo lento permite a escuta de si, perceber o próprio corpo, perceber sentimentos, perceber a parada, perceber o prazer do relaxar, perceber que há distanciamento entre o meu desejo e a realidade, entre mim e o outro. Onde estes aspectos estão sendo trabalhados na escola? A escola mudou de roupagem mas continua tradicional, não se adequou a necessidades vitais para que a criança e o adolescente encontrem neste espaço, mediações que elevem sua humanização, enriqueçam seu potencial e possam se tornar líderes num mundo globalizado.

Ao contrário negamos a cybercultura e negamos a humanização como papel da família e não da escola. É na escola que estão os educadores e são estes que tem que estar preparados para o mundo atual. Pais e professores estão sem tempo e paciência.Sem culpar pais e professores pois estamos na mesma sociedade e somos alvos também desta corrida sem fim, somos os adultos e deste papel não podem se isentar. Cabe a cada adulto a tarefa de educar – enriquecer, significar e transformar. Só adultos que construíram uma escuta interior possuem esta capacidade! Os rótulos aprisionam identidades, excluem a subjetividade e o desejo.

Morin ( 2002 ), eminente filósofo francês, solicita um combate vital a lucidez de todos marcando que os caracteres mentais, culturais dependem das disposições psíquicas e culturais e é preciso detectar as ilusões que encobrem o conhecimento vivo, verdadeiro e construtor. Outro aspecto relevante é observarmos a comunicação pois segundo este autor as percepções do mundo são traduções e reconstruções cerebrais a partir de estímulos ou signos captados pelos sentidos, portanto são relativos.

Os erros perceptivos levam a erros intelectuais e a história marca vários erros denominados científicos, pois a ciência clássica recusou-se a incluir a afetividade com um ponto entrelaçado em todas as teorias além de se preocupar com produtos e não processos. Ao contrário do que se discutia anos atrás, a afetividade não asfixia, pelo contrário, ela fortalece uma construção, pois trabalha em unidade onde a afetividade e inteligência estão indissociadas.

Para compreender o sintoma hiperatividade com profundidade é preciso definir o paradigma sob o qual se assenta a síntese desta compreensão. A cultura impõe aos humanos desde o nascimento um caminho a seguir implicando em conformismo e normalização. Para se lutar contra a ilusão é preciso ter cuidado com as teorias, pois estas podem ajudar a organizar ou podem aprisionar. Há urgência de processar as teorias sobre a Hiperatividade num contexto histórico e político “pois a incerteza mata o conhecimento simplista e é desintoxicante do complexo” Morin (id ). Para chegar a possibilidade de perceber a complexidade humana é preciso estar renovando e interligando novas teorias mas num processo construtor, relacional, crítico para se auto-reformularem.

Se a renovação teórica se abre podemos perceber a globalidade da pessoa em questão e observar o dado parcial vinculando o detalhe ao global , as partes a totalidade. Apreender a pessoa no seu contexto, nas suas complexidades e nos seus conjuntos. Apreender relações mútuas e influências recíprocas entre partes e todo num mundo complexo.

Para o mundo dos adultos – família e escola é preciso: receber e dar informações situadas em contexto para terem sentido; recompor as informações no todo para conhecer as partes e sempre captar as várias dimensões que estão envolvidas no processo. Portanto Hiperatividade é sintoma e não doença. Sintoma de que os contextos precisam ser inseridos no processo de reorganização neuropsicológica.

Aquela menina de 12 anos que tomou anfetamina autorizado por médicos, hojé é a colunista deste jornal. Tempo rápido e lento? SIM! Os dois! Portanto o alerta fica para os responsáveis perdidos entre tantas chamadas. Acho que o caminho que meus pais tomaram foi muito coerente. Conheciam sua filha, sabiam que eu não era doente e encontraram formas simples, humanas e contextualizadas e hoje tenho certeza de que estão felizes em ver que sua filha continua saudável. Remédios? Apenas homeopatia que me acompanhou a vida toda. Atividades? Muitas ! Rápidas e lentas. A Medicina Chinesa , Tai Chi Chuan, Yoga….caminhos sempre mágicos!

Há muitos caminhos naturais mas… é preciso ter tempo para perceber e analisar qual caminho queremos seguir. Doença ou saúde? A resposta está em seu coração e no amor dedicado a seus filhos!

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