21 Dias – Topo

Mais do que nunca é preciso dialogar

Por Rosa Prista

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O que temos oferecido as crianças para inseri-los no processo de humanização?
Certa vez, em um restaurante em viagem aos nos Estados Unidos várias famílias estavam almoçando – mães, pais e filhos – , mas uma família me chamou a atenção pela singularidade da criança que ali estava. Pequena criança de, no máximo, um ano e meio sentado como um rapaz e uma senhora acariciava a mão dele. A criança estava quieta, atenta ao mundo mas comportava-se como um rapaz. Olhava para os pais do outro lado da mesa onde ambos estavam no celular. Como ele não conseguia a atenção dos pais começou a jogar guardanapos no chão . Foi bem interessante a cena e não podia deixar de olhar porque a mesa estava bem a minha frente e a inteligência da criança me surpreendia.

A babá, agora devidamente caracterizada, tentava tirar a atenção da criança para ela mas a criança queria investir nos pais . E fazia este movimento de forma muito graciosa. A mãe continuava no celular e o pai em determinado momento olhou para a criança e ela bateu no celular jogando-o ao chão. O pai finalmente ao buscar o celular encontrou o olhar do filho e passou a brincar com ele. Cada vez que a criança jogava um brinquedo no chão o pai a repreendia porque achava errado o que ele fazia. A babá interviu e o pai passou a brincar com o filho entrando no jogo simbólico do ir e vir do brinquedo. O jogar e o receber junto ao pai. Era uma família brasileira.

O aumento da violência assusta a todos mas a base desta violência está na desumanização do Ser presente nos sujeitos, se é que posso chamar de sujeitos, aqueles que não aprenderam as palavras para se expressar, sem encontrar quem se interesse em ouvi-los e em falar de verdade com eles, o que resta é a violência, ato agressor de quem não usa sua “energia epistemofílica”para construir, para empreender, para se constituir como sujeito reflexivo.

E tudo começa no olhar. O olhar da mãe pelo filho, o olhar do pai para o filho, numa triangulação necessária a estar no mundo. Voltando a cena original vamos nos indagar onde estava a mãe neste processo. A mãe manteve-se no celular e quando a brincadeira provocou altas risadas entre pai e filho ela passou a fotografar a cena. Fato muito rico e interessante que esta criança fez de tudo para ter a triangulação. Parecia muito atento a babá que em momento algum deixava de significar seus atos e de forma muito silenciosa encaminhava a criança a seus pais. Assim, todos que lidam com crianças , desde os bebês nas creches, nos maternais, precisam aliar sensibilidade, afeto às palavras. Sentir é importante mas transmitir o que se sente mais ainda para dar forma, dar cor e configurar vínculos.

Toda criança adora quando conversamos com elas, amam as histórias que contamos ao acordar, no almoço, no jantar e na hora de dormir. Ah! estas histórias de dormir fazem a colunista viajar para sua infância pois algo muito bom acontecia a noite. Meus pais contavam histórias, as vezes um, as vezes o outro ou até juntos. Uma coisa eu tinha certeza, toda vez que acontecia no Jardim do Méier uma feira de livros, vários chegavam em casa pois era o momento que meus pais conseguiam estar comigo e numa prosa relaxante os três paravam para dialogar.

Meus pais eram comerciantes e não tinham muito tempo mas não abriam mão do café da manhã na mesa , no jantar e nos almoços de domingo onde minhas avós e tios estavam presentes numa grande bagunça, e que bagunça! Era neste espaço que falávamos do que sentíamos, do que queríamos e do que gostávamos. As vezes também e não muito raro, brigávamos muito tentando fazer valer nossos pensamentos. Mas aí vinha a saborosa comida e naquele espaço de alquimia culinária sentimentos se transformavam em atos de afeto e de perdão.

A família tem a ordem número um de educar e de inserir na ordem humana. Isto quer dizer que é na família que a criança aprende sobre o outro, o que é certo, o que é errado e nos identificamos com os atos de nossos pais. Se como pais conversamos sobre sucesso, fracasso, paixões, qualidades teremos um cidadão mais aberto, mais expressivo, mais situados na ordem subjetiva humana. Isto começa cedo.

Naquela mesa uma linda criança ensinava os pais a ordem humana. Sentamos na mesa para olhar um para o outro, para descobrirmos o que cada um gosta, para elogiar a forma como estamos juntos. Neste espaço não há lugar para celular, tablet, computador. É o espaço do humano, dos sentimentos, das emoções e fundamentalmente das palavras. Prestar atenção nas palavras do outro é prestar atenção ao outro e as suas habilidades. É desta forma que crescemos!

A criança é corpo, ganha sentido a partir dos pais, ganha forma, ganha nome , ganha movimentos e atitudes a partir dos desejos de outros mas é no toque, no colo, no amor, no “sim” e no “não” que vai criando contornos únicos . Quando ainda bebê a forma de aprender sobre o relaxar e contrair acontece no corpo, no toque dos que cuidam dela. Se não há um sonho de constituir um filho, se não há o desejo de tê-lo, se o nome escolhido não expressa intenções, o pequeno Ser não se transforma em um Homem posicionado no mundo. Não havendo esta construção singular, ser desejado por um outro, a violência é a linguagem mais primitiva e possível ao ser humano.

A criança traz várias histórias anteriores mas é preciso olhar, tocar, falar para que ela constitua uma história que não é a que deram para ela mas a que deverá constituir com seus próprios passos.

Minha orientação como neuropsicóloga é sempre do espaço aberto e livre para que se possa falar, se possa usar palavras para expressar qualquer sentimento, palavras que traduzam a beleza interior ou palavras que traduzam o que não gostamos de ouvir, palavras que possam marcar o espaço de um sujeito constituído e constituinte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *