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Quando menos é mais: minimalismo

Por Bruna Tschaffon

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Recentemente, ao navegar pela internet, eu me deparei com o conceito de minimalismo. Em síntese, é a proposta de abandonarmos tudo de que não precisamos e nos livrarmos do excesso, tanto em sentido material quanto abstrato. Significa ter a clara intenção de encontrar um propósito no que consumimos e em como gerenciamos nosso tempo.

Eu devo confessar que, a princípio, subestimei como um conceito tão simples poderia ter um impacto revolucionário na minha vida, mas havia algo inegavelmente sedutor na ideia de ter mais desprendimento e liberdade. Acho que isso me encantou porque eu percebi como eu fui condicionada, assim como a maioria das pessoas o são, a consumir bem mais do que é necessário.

A propaganda está em todos os lugares. No instagram, no facebook, nos outdoors, nos programas de televisão, nos filmes… Somos instigados a consumir mesmo quando não o percebemos. Vivemos em uma cultura extremamente apegada aos bens materiais, com a ilusão de que eles nos trarão felicidade. Preenchemos o nosso tempo com uma lista de compromissos e não priorizamos a formação de vínculos afetivos.

O documentário Minimalism (Minimalismo), disponível no Netflix, aprofundou o debate e expôs os efeitos negativos do consumismo e da vida de excessos. Foi particularmente instrutivo porque desconstruiu a noção de que, para ser minimalista, eu precisaria me livrar de 90% de tudo que eu tinha e morar numa cabana no meio do nada.

Na verdade, o minimalismo é uma proposta de consciente edição da sua vida e de eliminação daquilo que não tem real funcionalidade. É a liberdade da compulsão pelo ter em detrimento do ser. Não é que você não possa colecionar algo de que gosta: o minimalismo tem como sugestão fazer com que você reflita, de modo ativo, sobre o seu consumo e sobre como gasta o seu tempo e só se apegue ao que for essencial. Isso, obviamente, varia de acordo com a pessoa.

Decidi, então, testar a proposta do minimalismo. Meu primeiro passo foi fácil. Aproveitei o meu tempo de férias e arrumei meu quarto, fazendo questão de me livrar, pragmaticamente, de tudo que já não tinha mais um propósito. Tentei ser o mais objetiva possível e me policiar quanto às associações afetivas que tinha formado com certos itens.

Com o meu vestuário, foi simples: se eu não usei um item nos últimos meses, ele não tem o propósito de ficar lá no meu armário. Separei tudo e doei. As blusas que antes ocupavam duas gavetas agora ficam em apenas uma, com sobra de espaço. Adotei o mesmo procedimento com os acessórios. Guardei comigo apenas itens que  genuinamente me serviam e me encantavam.

Só com este passo inicial, meu guarda-roupa diminuiu consideravelmente e eu pude doar muitas peças. Eu pensava que abrir mão das coisas e ver espaços vazios fosse me deixar com a sensação de falta, mas o efeito foi justamente o contrário. De quanto mais eu me livrava, mais limpo parecia o meu quarto. Menos caótico. Era como tirar um peso enorme das costas: eu já me sentia menos ansiosa e aflita no meu cômodo.

O segundo passo foi reduzir a quantidade de livros. Eu sou apaixonada por leitura e tinha tantos exemplares que minha antiga estante teve duas prateleiras quebradas pelo peso dos livros que coloquei nelas. Além disso, sou muito alérgica à poeira e a montanha de livros piorava minha saúde. Perguntei-me honestamente se eu tinha a necessidade de colecionar os que já havia lido, a considerar que minha lista de leituras era tão grande que não teria tempo de voltar e reler.

Descobri que era fácil me desapegar porque eles não tinham um propósito: já haviam sido lidos. Separei-os numa caixa e comecei a me desfazer. Mantive apenas os que ainda precisava ler e uma lista seleta de sete livros que serviam para consulta posterior. Um aspecto que facilitou muito essa tarefa foi o Kindle: eu posso administrar uma biblioteca digital enorme em um único aparelho, o que é muito conveniente.

Em seguida, desfiz-me dos papéis inúteis e antigos que abarrotavam minhas prateleiras e doei tudo que estava em condições de ser usado. A quantidade de sacolas que saiu do meu quarto foi impressionante. Como eu me permiti acumular tanta coisa sem a ciência de que era um exercício fútil? Foi um abrir de olhos. Eu caíra na armadilha do consumo desenfreado e não tenho mais intenções de voltar a esse estágio.

Meu quarto está irreconhecível em comparação ao que era antes. Parece até maior! Pela primeira vez, eu sinto que estou num ambiente que traz calma e serenidade para a minha mente ativa e ligada na tomada de 220 volts. Pretendo usar os próximos três meses como novo período de observação, para então editar novamente meus pertences e abrir mão do que não usei.

Meu próximo passo é elaborar um cronograma que cumpra a mesma proposta de edição, desta vez quanto aos meus horários. Sei que será a parte mais complicada, mas também estou ciente de que é uma etapa necessária. Meus dias são tão abarrotados de atividades que, nos últimos meses, tenho vivido à base de cafeína. Agora, meu objetivo é cortar os excessos e incluir horários: para praticar atividades físicas que me deixem feliz, para relaxar um pouco a mente e para me dedicar às pessoas e atividades que eu amo.

O minimalismo não é uma receita de bolo, uma promessa boa demais para ser verdade ou uma fórmula mágica. É a mera simplificação, o movimento contraintuitivo em tempos de consumo louco, blackfridays e iphones lançados a cada ano. É um ir contra a corrente que traz benefícios surpreendentes. Nos últimos dias, eu aprendi que, em termos de felicidade e qualidade de vida, o menos é mais. O menos é mais calma, mais harmonia, mais equilíbrio num mundo tão acelerado que insiste em nos atrair com o excesso.

Antes de comprar algo ou me comprometer com alguma atividade, eu devo me indagar: “eu realmente preciso disso?”, “Isso tem um propósito na minha vida?”. Devo ser sincera comigo mesma. Se a resposta for não, então não devo comprar ou me comprometer. Não quero ser escrava do consumo, quero ser uma consumidora consciente. O consumo em si não é inerentemente condenável, pelo contrário, é fundamental para a sobrevivência. O perigo está no consumo não deliberado, com a expectativa de satisfação imediata de uma mera vontade que vai e passa.

O minimalismo tem me ajudado bastante. Ainda que, nesta coluna, eu não tenha me aprofundado tanto sobre o tema quanto gostaria, espero que seja útil para chamar atenção ao assunto e estimular outras pessoas a pelo menos tentarem colocar a proposta em prática. Para quem se interessou, recomendo o documentário já citado (Minimalism). Os criadores do documentário também publicaram um livro a respeito e mantem um site (theminismalists.com). Além disso, vários artigos na internet se dedicam ao minimalismo.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café”, booktuber e é autora de três livros: seu primeiro romance, “Lítio”, publicado pela Editora Giostri, à venda na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura; o e-book de poesias “Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais”,está à venda na Amazon e no site da Livraria da Folha. Seu terceiro livro e segundo romance, ” Morfina”, está disponível no Wattpad em formato digital gratuitamente. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia, no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora) e no youtube (www.youtube.com/c/BrunaTschaffon)

 

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