Salto Fino 1

Eu estou aqui! O lugar da consciência na formação da humanidade

Por Rosa Prista

Foto: Pixabay

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Estive em São Paulo na última semana para apresentar a minha relação profissional com a Psicologia Analítica, área de profundidade da Psicologia que enfatiza com muita sacralidade o lugar da relação EU – OUTRO na constituição psíquica de uma pessoa. A Psicologia Analítica possui Jung como seu construtor inicial e ele foi o primeiro neuropsicólogo da história. Longe das atuais vertentes americanas que buscam condicionar o homem, Jung apresentou um caminho profundo de reorganização do ser humano através do mundo selfítico ( lado mais autêntico presente no interior humano).

Estávamos no evento : ” Jung na Prática” bem no centro de São Paulo. O evento foi muito bom quanto a acolhida e quanto ao conteúdo, mas em torno do teatro que estávamos víamos muita pobreza e degradação humana. Desde pequena sou uma pessoa sensível a estas cenas e, sendo premiada por Direitos Humanos duas vezes, não aceito a ideia de estar em minha casa com uma cama limpa, alimentação saudável e entretenimento diversos enquanto na rua pessoas perderam a capacidade de construir criativamente seu sentido de vida. Viver na rua com insetos, ratos, comendo os restos de comida não pertence ao conjunto humanidade. Sou de uma época que tirava os pães do comércio de meu pai para distribuir aos pobres que ficavam sentados nas escadarias de trem do Méier . Sei que isto não resolveu a situação mas era a minha forma ingênua de doar pois há algo dentro de mim que me conecta ao outro.

Quando saímos do primeiro dia, fomos a uma pizzaria tradicional de São Paulo e uma outra cena contribuiu para esta reflexão. Em uma mesa tínhamos pai, mãe e duas crianças. Uma delas tinha uma boneca que ela deixou sentada a seu lado . Enquanto os pais ficavam no celular a criança iniciou brincando com a boneca. Tentava mostrar a mãe e ao pai o que estava fazendo com sua boneca. Muitas vezes, ela tentou mas não houve retorno pois os pais estavam no celular. A criança então pega a boneca, joga no chão e pega seu tablet para brincar. Eu consegui ver a cena toda, pois eles estavam na minha frente e sempre que vejo uma criança na mesa eu observo atentamente como um link nas diversas vezes que estive com meus pais. A mesa sempre foi símbolo de união, de sabores, de bagunça e de trabalho! Quando sai da pizzaria, a boneca continuava no chão…

Volto ao seminário no dia seguinte e me indago se aquelas pessoas que estão no chão, jogados, sujos tiveram a possibilidade de um encontro com seus pais e o que fazemos?

Alegamos que eles querem ficar na rua. Sim, eles querem porque não temos lugares adequados ao humano. E a falta de afeto, dignidade e respeito leva ao empobrecimento de nossas capacidades humanas. Mas temos também as crianças que possuem pais, possuem mesas em sua casa que também não recebem afeto, dignidade e respeito porque ser pai e mãe implica em uma revisão de nossos papéis humanos antes de ficarmos grávidos. Ser pai e mãe é reavivar a história de nossas vidas na infância e na adolescência . Ser pai e mãe é olhar, prestar atenção ao que é dito, abraçar, brincar junto, conectar na pele e não no virtual.

Edward F. Edinger, exímio analista junguiano desde os anos 50 nos convida a uma bela reflexão. Vivo em sua obra, ele nos informa “A história e a antropologia nos ensinam que a sociedade humana não pode sobreviver por muito tempo, a menos que seus membros estejam psicologicamente contidos num mito central vivo”. O mito proporciona ao sujeito uma razão de Ser. Mas a sociedade atual está em colapso, estilhaçamos nossa essência preciosa. Estamos deixando ser “sugados por conteúdos primitivos e atávicos” (id). O sentido de cada um de nós se perde e perdemos a capacidade de cuidar do outro.

Jung, pai da Psicologia Analítica visitou os índios Pueblo no sudoeste dos EUA. Cabe aqui lembrar a ingenuidade profunda deste povo. Os índios acreditam que ajudam o pai, o Sol, a nascer todos os dias e a fazer a transição cotidiana: “somos um povo que mora no telhado do mundo; somos os filhos do Pai Sol e, através de nossa religião, ajudamos nosso pai diariamente a atravessar o céu. Fazemos isso não apenas por nós, mas pelo mundo inteiro. ” Esta narrativa marca uma vida cosmologicamente significativa . E a nossa? Para onde estamos indo? O que nos une como humanos para o coletivo?

Em primeiro lugar, podemos compreender que o objetivo da vida humana é a criação da consciência. Palavra- chave: consciência. Quando ganhamos consciência captamos nossos conflitos internos e externos e construímos criativamente as soluções. Estas soluções estão bem perto de cada um de nós. Então, vamos buscar!
Em segundo lugar, ganhamos consciência na relação com o outro. Em torno temos as pessoas mais valiosas para nosso enriquecimento: Nossa família. Cuidar da família de forma presente, sensível e criativa é o processo alquímico mais importante.

Em terceiro lugar, ganhamos maior aprofundamento quando encontramos no encontro com o outro nosso lado sombra, um lado que não gostamos de conhecer mas que precisa vir à tona para que o encontro entre nossos opostos ( o lado bom e mau, altruista e egoista, etc) nos conduza a individuação, processo de ser mais humano a cada dia.

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