Salto Fino 1

Por que temos tantos autistas atualmente?

Por Rosa Prista

Foto: Pixabay

Foto ilustrativa: Pixabay

Estava outro dia olhando a internet e resolvi computar as páginas que se referem ao tema autismo. Fiquei mais uma vez surpreendida como a questão do AUTISMO virou causa pessoal, política, econômica e parece que todos atualmente se dispõem a trabalhar com eles.

Só na internet eu computei 300 grupos entre familiares, profissionais, lojas de comércio, grupos religiosos e fiquei me perguntando porque será que este tema tem levantado tantas questões polêmicas e tão supostas ofertas no mercado.

Fui até ao Governo Federal verificar o que temos de políticas públicas, propostas científicas e mais uma vez me surpreendi com a orgia epistemológica presente nos documentos brasileiros.

Sou de uma época onde fazer uma universidade era algo sério, trabalhoso, profundo e não passávamos por qualquer trabalho. Aprendi a estudar em livros e não havia google. A única possibilidade de você copiar um trabalho seria descobrir as anotações do professor ou copiar do livro. Então era ler livros e livros e tirar as conexões necessárias para ser aprovado.

Então nesta época só tínhamos um jeito de não esquecer todo o material: descobrir a origem do conhecimento . Isto dava um trabalho enorme mas permitia que toda a construção cientifica que fizéssemos viesse com contextualização, profundidade e criatividade. E nunca copiávamos os trabalhos, nem do colega e muito menos dos autores. Lembrar e citar os verdadeiros pesquisadores. Dar o crédito aos autores era outro fato comum. E hoje?

Temos uma grande confusão epistemológica na internet, isto quer dizer que um pai que recebe o diagnóstico de autismo ficará enlouquecido sem saber para onde ir . São tantas falas, tantas propostas, algumas indecentes! Tantas metodologias mas…poucas tomam o cuidado de mostrar suas bases filosóficas e epistemológicas. O pior é que se formaram vários grupos no whatsapp como forma de ajuda mútua mas a maioria pega o número de mães que dariam a vida pela cura de seus filhos para propostas ausentes de humanização. E o valores? As consultas já chegaram a mil reais e os pais se endividam para pagar uma consulta na esperança de resolução de seu desespero. Não, apenas inicia uma longa jornada de dúvidas, investimentos no filho – quando conseguem- e a anulação parcial ou total da vida conjugal. Não é a toa que a maioria das listas são compostas de mulheres .

Como seria para cada um de nós saber que independente da síndrome teríamos um lugar que a família é recebida, com espaço para se ouvir suas angústias, incertezas, medos e que neste ouvir caminhos fossem surgindo que ajudassem as mães voltarem a seus sonhos pessoais e de casal, voltassem a reorganizar a vida familiar com horários para seu filho ir para a escola ( uma escola séria inclui sem denominar), de ir para sua estimulação , de ir a um esporte , enquanto os pais realizam suas atividades laborais. E o melhor: ao chegar em casa a criança fosse para seu quarto, fizesse a refeição da noite e conseguisse dormir pelo menos seis horas. Sonho? Não. É uma realidade possível ao mundo do autismo mas para isto vários pontos precisam ser revistos.

O primeiro ponto é rever os altos diagnósticos de autismo que estão sendo dados diariamente sem nenhum cuidado ou estudo aprofundado. Todas as crianças que não falam, não olham, não respeitam regras, que jogam longe seus brinquedos quando contrariados viraram autistas e mais…todos agora sabem diagnosticar autistas. Falta leitura hologramática, de contexto, de análise. Não se pode determinar a vida das pessoas sob o nosso título autoritário de especialistas e muito menos de leigos. Há muitas situações emocionais nos contextos familiares que levam as crianças a terem dificuldades em fluir a linguagem, em entrar em interação e em olhar.

Em uma semana recebo uma série de cinco crianças com diagnóstico de autismo e eu os retiro. Muitas das vezes solicito o laudo do profissional que diagnosticou a criança mas nunca há. O profissional diagnostica, muita das vezes interrompe os planos familiares e não assume tal colocação. Para quem escuta famílias semanalmente é muito complexo e lamentável o que as pessoas vem fazendo na área de saúde mental da criança e do adolescente. Profissionais deveriam lembrar as palavras do livro: ” Antigos e Novos Terapeutas” de Roberto Crema que os grandes terapeutas da Babilônia se reuniam no Lago Mariotis porque não se contentavam em dizer, teorizar, especular, mas buscavam curar-se e curar os males que tocavam sua sociedade.

Em segundo lugar, não há progresso para o autista sem a família ser reconfigurada e recolocada no mercado laboral. Mas para tal é preciso estrutura de educação para que estas pessoas sejam significadas e produtivas. Em recente pesquisa o CEC- Centro de Estudos da Criança/ ENCONTRE-SE! provou que os autistas falam desde que as intervenções sociais favoreçam o desabrochar de uma linguagem com intenções comunicativas. Entre dez autistas trabalhados nestes últimos dois anos, nove estão falando e tendo a intenção de comunicação. A diferença? O trabalho familiar de base sistêmica.

Em terceiro lugar, é preciso romper com o cartesianismo de nossas propostas metodológicas. Gostaria muito que as pessoas pudessem cobrar financeiramente por métodos reais, avaliados e cientificamente comprovados. Mas não basta seguir o modelo da patologização da psiquiatria americana. Este modelo está preocupado com sintomas e denominações patológicas. A subjetividade humana não é levada em conta. Como ex estudante de doutorado nos EUA tenho clareza que é preciso ponderar. Um autista é um ser humano e é preciso acima de tudo de pessoas disponíveis a ouvi-los. Já falamos demais por eles, dizemos o que precisam, como devem ser mas poucos ousaram transcrever a linguagem que emana de seus gestos sob o viés deles.

Em quarto lugar, é preciso romper com a ideia de que autista precisa de medicação. Cada ser humano é diferente do outro e possui necessidades e histórias diversas que podem ou não chegar a necessitar de uso medicamentoso. Mas não é uma condição!

Não podemos esquecer que a maioria dos autistas não ascende a um desejo próprio pois são acostumados a serem desejados pelos adultos em torno e determinados por várias metodologias. Então a tarefa maior é fazê-los desejar. Como? Deixando espaço para que possam buscar, buscar de foma intencional e finalmente existir!

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