Cinemark – 2

Dar e receber na infância

Por Rosa Prista

Foto: Pixabay

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Tenho acompanhado as notícias apresentadas pelos canais de TV sobre as diversas balas perdidas que dilaceram o coração de famílias que nunca mais irão ver seus filhos. Parece que estamos nos acostumando com a violência urbana como se estes fatos fossem comuns. Me reporto aos meus filhos ao ver a dor das mães solitárias, da angústia de ter que aprender sem seus filhos. Que medo invade meu peito numa respiração egoísta . Procuro não julgar as pessoas envolvidas nestas tragédias mas choro, oro e busco refletir como contribuí ou posso ainda colaborar para que este quadro revolucione nossa sociedade. Sou de uma época onde a corrupção já existia.

Meu pai era comerciante e sempre era assediado por fiscais que entravam em seu estabelecimento para encontrar uma falha e multá- lo. Meu pai, muitas das vezes, fingia aceitar o suborno e armava para prender os fiscais que ganhavam a vida duplamente. A sociedade que vivia era mais forte e reprimia estes comportamentos. Procurávamos seguir os dez mandamentos, pois naquela época o catolicismo era a religião social. ” Não roubarás!” nunca saiu da minha cabeça! Mesmo quando decidi não seguir mais o catolicismo e sim os valores de meu coração. Minha contribuição foi criar dois filhos incríveis que sabem DAR e RECEBER. Que amam os animais e as plantas e principalmente as pessoas.

Como professora, formei multidões desde a educação infantil até a universidade. E que trabalho! Não é fácil querer devolver ao ser humano sua natural capacidade de humanizar! Fui professora durante 31 anos em escola pública e 2 anos em escolas particulares e tinha alunos fantásticos. Muito carentes financeiramente, mas muito inteligentes. Ensinava não só a disciplina mas acima de tudo valores: amar o outro, respeitar opiniões diversas, aceitar os colegas de outras raças, desejos e gostos diferentes e, acima de tudo, me permitia banhar meus alunos nos quatro princípios principais da educação freinetiana ( princípios do educador francês Célestin Freinet e que foram utilizadas pelo educador brasileiro Paulo Freire): afetividade, comunicação, cooperação e documentação.

Quando Freinet sinalizava que não há aprendizagem sem afetividade ele reporta aos estudos de Freud, Jung, Wallon, etc porque para haver aprendizagem é preciso criar vínculos. Nosso primeiro vínculo é com a mãe e é com ela que vou aprender a me relacionar no mundo. Nossa mãe é espelho de nossos atos, a que nos ladeia e a voz da permissão ou negação de nossos sonhos. Em nossa sociedade atual não há tempo para afetivizar. Estamos sempre correndo e com isto perdemos grandes espaços de construções subjetivas. A infância é espaço fundante de nossa personalidade e só a construímos nas relações.

. Fui coordenadora de um Ciep na Prefeitura do Rio de Janeiro e, ao entrar em uma sala de aula, uma professora ficou tensa achando que iria reprimir sua atividade. Ela criou cabanas para seus alunos, com lençóis, e na hora do descanso, após o almoço, eles se enfiavam nas cabanas e dormiam. Eram alunos de 9 a 13 anos que encontravam na atitude da professora proteção, fusionalidade, descanso e confiança. Muitos diriam que era perda de tempo mas sabiamente esta professora permitia que os alunos vivenciassem suas necessidades afetivas e ganhava muito mais confiança em seus atos e solicitações. Afinal, eu dou o que recebo.

Enquanto os pais, os professores derem afeto, estas pessoas terão condições de ofertar esta energia tão rica, tão transformadora e tão alquímica. A comunicação, fator fundamental para evitar conflitos, é o segundo tópico chave para termos pessoas saudáveis. Na minha época de criança, anos 60, crianças não se manifestavam, apenas obedeciam. Eu tive pais que me ouviam, afinal era muito tagarela para me calarem. Nem sempre fui ouvida mas me deram chance de erguer minha autonomia de pensamento e, muitas vezes, segui a voz de meu coração. Ser professora foi uma delas. Ser psicóloga também! Todos nós percebemos como sentimos e nem sempre tem o significado do outro, apenas o nosso.

O exercício diário nas salas de aula de ouvir os alunos e de ensiná-los a escutar o professor e seus colegas é arma humanizadora. Infelizmente a maioria das salas de aula imprime apenas a nuca e não os olhos dos colegas! Os grupos operativos são espaços que mostram a importância deste exercício. As famílias em suas casas por sua vez priorizam os aparelhos celulares e as vias virtuais substituindo as antigas conversas em torno da mesa, o café com bolo da vovó, o almoço de domingo ou o chá das cinco com bolachas… Os atos humanos cada vez mais ensinam as crianças a pensarem em si, apenas em si, eternizando um narcisismo perigoso e desleal. Se aprendemos apenas a valorizar o que queremos não construímos pessoas solidárias.

A cooperação como terceiro ítem anunciado por Freinet brota naturalmente de um ser que recebe e dá afeto, que sabe se comunicar porque o outro é importante . Se o outro passa a ser parte constitutiva de minha vida eu vou em busca do outro, dos grupos, das rodas, das parcerias. Passo a cuidar do semelhante! E consequentemente a documentação, quarto ítem anunciado por Freinet, passa a ser prazeroso porque passamos a valorizar nossas ações: nossas fotos que deixaram de ser impressas, nossas cartas que deixaram de chegar pelo Correios, os cadernos de sala de aula que não são mais caprichados porque não se dá mais a importância aos processos e sim às notas, aos concursos e méritos. Dar e receber na infância exige processos de formação de elos entre as pessoas, o prazer de fazer juntos, a construção de pessoas que construíram uma família, ou recasaram formando outras famílias e de educadores pois estes sabem perfeitamente o valor do afeto, da comunicação, da cooperação e da documentação na formação de personalidades saudáveis construídas entre o DAR e RECEBER.

A violência continua e cada vez mais as pessoas se isolam em suas casas com medo dos tiros perdidos mas há formas de minimizar este processo que é o PROCESSO EDUCACIONAL implantado em nossas escolas, que estão em comunidades e que podem disseminar novas formas de cultura da paz. A questão que me parece perigosa é que o campo da educação está sendo dilacerado por políticos sujos e por marginais que determinam as instituições públicas o seu fazer. Solução existe mas é preciso DAR e RECEBER pois este processo dialógico está em execução mas na contramão dos valores humanos e cada um de nós é responsável por este lamentável clima de desumanização das relações sociais.

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