Hinode – 1

O coletivo de borboletas

Por Bruna Tschaffon

Foto: Divulgação

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Poucas coisas são tão desconfortáveis quanto fazer parte de uma conversa na qual vem à tona uma palavra essencial cujo significado nos é desconhecido.  A língua portuguesa, para piorar a situação, é repleta de vocábulos misteriosos, praticamente inutilizados, os quais podem surgir de repente, feito casca de banana para que escorreguemos.

Há algumas semanas, por exemplo, meu professor indagou qual era o coletivo de “borboletas”. A turma emudeceu. Eu, que até então me orgulhava pelo simples fato de ter lido Machado de Assis, fiquei contemplando minha própria santa ignorância. “Panapaná”, ele esclareceu. Eu coloquei a bendita palavrinha na minha lista de inimigos, enquanto meus colegas riam.

O grande problema, entretanto, é tentar compreender o significado de palavras que julgamos conhecer por serem tão recorrentes e aparentemente simples. Eu fiquei me indagando o que a minha turma responderia caso o professor perguntasse em seguida o que era “felicidade”. “Alegria”, diria um. “Contentamento”, diria outro. “O contrário de tristeza”, talvez.

Todo mundo acha que “felicidade” é uma palavra óbvia e, ainda assim, as prateleiras de autoajuda estão repletas de páginas e mais páginas cujo objetivo é justamente compreender o seu sentido. As pessoas acham que a felicidade é um destino, um ponto distante a ser atingido por meio de uma conquista, em vez de um contínuo processo de apreciação pelo que se faz e pelos pequenos presentes que a vida diariamente oferece. Assim, vestimos a felicidade com as roupas de uma euforia passageira que são curtas demais para seu real tamanho.

As pessoas pensam que a felicidade, por ser o antônimo de infelicidade, é impossível de ser sentida quando circunstâncias árduas se impõem ou quando o coração se contrista. Fogem da tristeza a qualquer custo, em teimosa ignorância de que sentir a dor, aceitá-la e deixá-la ir também traz a felicidade madura e sábia do aprendizado. Assim, mascaramos a tal felicidade com o disfarce do sorriso perpétuo e congelado.

As pessoas acham que a felicidade é barulhenta, a gritar nas fotografias cheias de filtros em redes sociais, numa espécie de encenação coletiva socialmente aceita. Projetam a imagem de uma vida irretocável e consumem o teatro alheio num espetáculo macabro que beira ao masoquismo emocional. Assim, perfumamos a felicidade com o aroma insuportável da ostentação até que este a domine e a subjugue.

Felicidade é uma palavra tão importante e tão deturpada que nos faz tropeçar todos os dias. Acumula-se, sorrateiramente. Faz com que, ao passar dos anos, reavaliemos cada uma de nossas escolhas, por vezes lamentando a maioria delas. Se não a compreendemos, sobrevivemos sem realmente viver.

Quem sabe seja uma questão de se atentar para a metamorfose pela qual a palavra obrigatoriamente passa ao reverberar em nosso âmago com a profundidade requerida. Sinto que nos limitamos às larvas da felicidade, com a visão restritiva e condicionada do que nos é ensinado, e somos incapazes de admirar o céu cheio de borboletas quando a felicidade enfim amadurece em nós.

Uma panapaná no céu, diria meu professor. Sorri e mentalmente risquei “panapaná” da minha lista de inimigos.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e é autora de três livros: seu primeiro romance, “Lítio”,publicado pela Editora Giostri, à venda na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura; o e-book de poesias “Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais”,está à venda na Amazon e no site da Livraria da Folha. Seu terceiro livro e segundo romance, ” Morfina”, está disponível na Amazon em formato digital. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia, no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora) e seu canal literário no youtube (www.youtube.com/c/BrunaTschaffon)

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