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Adultos, por que esquecemos de nossa infância?

Por Rosa Prista

Foto: ilustrativa/Pixabay

Foto: ilustrativa/Pixabay

Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa. Jung ( 1975)

Em determinado dia, em minha clínica, fui entregar uma criança a seu responsável. Naquele dia o pai estava aguardando a criança. O pai quando viu a filha e a terapeuta despejou uma série de reclamações sobre a filha e de como ela não está progredindo. Progredindo aqui se refere a atender ao modelo que o pai criou para sua filha a partir de suas necessidades e de suas feridas narcísicas . Nada errado se esta atitude fosse dialogada com afeto, compreensão e limites amorosos.

Esta coluna é uma homenagem as crianças de todos nós principalmente as crianças dos adultos que esqueceram que dentro de si habita a criança que foi, a energia infantil saudável e transformadora. Quando me refiro a energia saudável, quero lembrar do grande neuropsicólogo Carl G. Jung que marcou que dentro de cada ser humano há o arquétipo, uma imagem impregnada da criança interior. Se esta imagem não coexiste com o adulto que somos nos transformamos em pessoas neuróticas e de mal com a vida.

A vida que levamos obriga a todo ser humano a ser o que não é. Perdemos facilmente o contato com a jovialidade, com a gargalhada, com o sorriso, com as piadas, com as brincadeiras , com os jogos porque temos muita pressa em ganhar dinheiro e ter coisas que nem sabemos se vamos usufruir. A vida corre e se não soubermos organizar o prazer e as obrigações perdemos o encanto e a capacidade de gerenciar com leveza nossas vidas.

As experiências da infância satisfatórias ou insatisfatórias permanecem impregnadas em nosso Ser. Apesar de adultos a carga afetiva, os traumas e o magnetismo permanecem por toda a vida. Os traumas podem distorcer a realidade de nossas vidas trazendo sofrimento sem causas aparentes. Por outro lado podem ser deslocados para os filhos que devem cumprir e satisfazer as necessidades de seu mundo interior. Para que esta criança interior viva temos que aprender a cuidar dela em nosso interior…sentir as polaridades da dor e do prazer, da luz e da escuridão,da alegria e da tristeza… pois a flexibilidade em viver as emoções facilita a fluidez de nossa capacidade de lidar com a vida.

O dinheiro é energia concreta mas também metafísica e flui a partir de nossas intenções, de nossos sonhos e de nossas metas e se for pesada não flui. Fica preso e dilui. O dinheiro depende de um ser humano focado em seu sentido de vida. Um ser humano que valoriza a si, sua capacidade e seus sonhos é um campeão na vida, no fazer dinheiro e na capacidade de empreender. Esta força intencional vem com nossa história de vida, nos reporta a infância que tivemos, as pessoas que nos educaram e a forma como lidaram com seu dinheiro.

Todo adulto , com exceções, vai dizer que a infância foi maravilhosa mas não é verdade. Toda infância é tensa, ansiosa porque nossos pais não nasceram sabendo ser pais e os que ousaram cumprir este papel foram aprendendo no cotidiano com seus filhos e reproduziram o que aprenderam . Aqueles que tiveram uma infância recheada de beijos, afetos, respeito, limites também ousaram fazer de sua vida uma história colorida e diferente de seus pais.Este é o processo esperado para que possamos seguir de forma fluente com nossa capacidade de pensar, sentir, fazer conexões mentais e de estar no mundo de forma diferenciada.

Mas sem a criança viva não conseguimos e vamos matando o potencial neuropsicológico aos poucos, ficando rígido e mantendo uma monotonia mórbida. As depressões são fruto de emoções não vividas…da rigidez em fixar uma personalidade que possui linearidade porque autorizamos que as instituições sociais nos digam como devemos ser. Sem espaço de silêncio, de contemplação, de refletir não ganhamos espaços subjetivos de expansão e não tocamos a fonte da criatividade, do deslumbramento e da abundância.

Então, avalie seu cotidiano. Onde está a sua criança interior? Como você vai cuidar dela? Que ações imediatas vão favorecer o surgimento dela? A educação do nível psíquico provoca mudanças a nível egóico. As qualidades da sinceridade, da pureza, da ingenuidade, da autenticidade, a síntese de opostos e a futuridade habitam dentro de nós e se permitimos acesso a ela estaremos entrando em contato com o mais alto nível de desenvolvimento humano preparando para a nossa evolução individual ( individuação) como preparando o futuro em alta escala.

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