Cinemark – 2

Neuropsicologia com pessoas que sofrem de transtorno psicótico

Por Rosa Prista

Membro da equipe CEC atuando em Medicina Chinesa. Foto: Divulgação

Membro da equipe CEC atuando em Medicina Chinesa. Foto: Divulgação

O transtorno psicótico foi definido na coluna anterior mas é assunto contínuo pois sua complexidade exige levar a população informações que construam novas configurações com estas pessoas e construir uma real sociedade inclusiva.

Fui aluna de Nise da Silveira, psiquiatra que mudou o tratamento com pacientes esquizofrênicos, quando no espaço do Hospital do Engenho de Dentro uma senhora viva e ávida junto a seus gatos tratava dos “pacientes” que a sociedade rejeitava.

Foi a grande psiquiatra Nise da Silveira que me banhou de novas possibilidades, caminhos de cores, pincéis, de construções e acima de tudo um caminho terapêutico colorido em um mundo cinzento da academia. Era época de estudos muito tradicionais na Universidade e muito cartesiana nas práticas clínicas.

O paciente com “transtorno psicótico” era uma pessoa rejeitada, massacrada, rotulado e condicionado. Não havia voz para estes pacientes… mas foi no espaço do hospital, local da  grande Nise da Silveira que passei alguns aniversários. Ela tinha um grupo de estudos guiado e eu não perdia nenhum. Recebi muitas poesias dos internos e muitas pinturas em papel. Era encantador ver novas visões sobre estas pessoas através de seus símbolos. Aprendi a ler, a tentar entender e a cuidar depois de longo processo de análise pois inicialmente eu também tinha medo de suas reações inesperadas.

Quando criei meu espaço terapêutico eu tive meu nariz quebrado, algumas torções, alguns ombros massacrados mas…nunca desisti. Hoje, na maturidade profissional tenho certeza de que é preciso pensar nestas pessoas e fundamentalmente nas famílias destas pessoas. Ter um filho que quebra a casa, que bate na mãe, que busca muitas das vezes uma figura paterna é algo complexo e merece toda a atenção da sociedade.

Nos anos 70, poderíamos aceitar virar as costas e aprisionar estas pessoas mas em 2017 é absurdo não estarmos trabalhando para uma melhor configuração social. E para tal precisamos identificá-los sem denominar todos estes casos como autistas. Afinal, no mundo atual todo quadro que não fala, que não olha, que não vive nos padrões esperados virou autista .

Vamos dar um suporte maior para compreender metodologicamente a dinâmica deste estado e evitarmos as confusões. O transtorno psicótico possui como invariantes:

1- Alterações no contato com a realidade;

2- Padrões e gatilhos familiares patológicos relacionados ao comportamento do psicótico;

3- Simbiose Psicológica com a figura materna. isto quer dizer controle sobre a mãe, sentimentos de amor e ódio, dormir com a mãe, etc;

4- Dificuldade na formação da auto-imagem. Não reconhecimento do todo corporal;

5- Conseqüentemente dificuldade na formação de identidade sexual;

6- Alterações nas relações com as pessoas. Desejo de controle do ambiente porque dentro de si  está sem controle;

7- Rigidez emocional, manutenção de  padrões;

8- Alterações de percepção. Compreende de acordo com suas próprias necessidades;

9- Uso constante do mecanismo de defesa – projeção. Coloca no outro a sua própria responsabilidade;

10- Delírios;

11- Reconhecimento da influência dos pais na estruturação patológica do psiquismo;

12- Exteriorização de conteúdos psíquicos de forma intensa;

13- Uso de mecanismos de defesa – regressão. Apresenta comportamentos e linguagem abaixo do esperado para a idade quando se torna conveniente a seus interesses;

14- Cisões no ego expressas no discurso verbal, plástico, etc.

15- Alterações na temporalidade e espacialidade;

16- Alterações psicomotoras importantes ;

17- Movimento intencional voltado unicamente a seus interesses;

Quanto ao diagnóstico é fundamental pensar em interdisciplinaridade pois a sociedade pensa logo em  psiquiatra mas a própria psiquiatria está bastante dividida entre a visão fisiológica e a visão de desenvolvimento. Enquanto neuropsicóloga, preciso marcar que poucos profissionais sabem compreender a formação patológica do quadro psicótico a partir dos discursos da família. Isto é uma técnica desenvolvida na área de Psicologia e aprofundada nas especializações de família e casal. Não buscamos culpados nesta esfera. Buscamos a compreensão das diversas histórias. Da mãe do pai, do tio, do avô e fundamentalmente constituir o mosaico de discursos do psicótico para que possamos reinventar com todos elos de reintegração. Este trabalho não se constitui na linguagem verbal mas na linguagem simbólica do psicótico e de seus familiares. Isto exige preparo pessoal terapêutico dos profissionais, preparo técnico, preparo cientifico como pesquisador e preparo estético criador.

O psiquiatra junto a equipe interdisciplinar irá medicar nas necessidades focais pois ao compreender a pessoa psicótica através da leitura ofertada pelo neuropsicólogo, pela análise quantitativa e qualitativa da fonoaudiologia, da apresentação dos textos e produções pedagógicas terá muito mais capacidade de ajudá-lo a retornar as atividades escolares e laborais. Nesta análise não há um poder maior. Todas as contribuições serão necessárias para compor o todo.

Entretanto, é preciso marcar que no Brasil o investimento em pesquisas interdisciplinares de cunho simbólico não são consideradas de valor. Gastamos muito dinheiro em pesquisas fisiológicas buscando causas e muito pouco em enfrentar o que está claro há anos. O transtorno psicótico se constitui na história familiar. Podemos ter um terreno fértil biológico mas o que leva a formação patológica é exatamente a forma como convivemos, como constituímos a nossa identidade pessoal, do casal, da família, os gatilhos patológicos comuns e os gatilhos dissociados.

Assim podemos compreender o transtorno psicótico como um transtorno dos fatos da existência que exige :

1- Compreensão clara da patologia ofertada pelo neuropsicólogo;

2- Psicoterapia familiar constante;

3- Revisão nutricional por profissional da Medicina Chinesa;

4- Reorganização tônica realizada por fisioterapeuta e por psicomotricista;

5- Uso medicamentoso a ser avaliado por psiquiatra homeopático, neurologista se necessário, profissional da Medicina Chinesa   e um homeopata. A discussão dos três profissionais pode trazer novas vertentes de trabalho sem a perda da subjetividade do profissional.

6- Revisão nutricional funcional;

7- Ateliê terapêutico ;

8- Oficinas de acordo com as necessidades elencadas pelo cliente em questão.

Assim , um tratamento no formato hologramático permite que a atuação interdisciplinar nutra novas posturas, novos tratamentos e novas pesquisas.

 

 

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