Uninter – 1

Mãe, muito além do que padecer no paraíso

Por Rosa Prista

Foto: Divulgação

Rosa Prista (E), com os filhos Guilherme Henry e Mayna Prista. Foto: Divulgação

Pedi a um cliente de quatro anos que desenhasse uma imagem de sua mãe com ele e ele me
mostrou a mãe comprando o último modelo de um carro automático. Perguntei a uma criança
de sete anos como ela via a mãe. E ela me respondeu: – Minha mãe compra muitas coisas
bonitas para mim e para ela. Perguntei a um adolescente sobre a sua relação com a mãe e ele
me respondeu que sua mãe é muito legal quando lhe dá dinheiro para sair mas é muito chata
porque fica mandando arrumar as coisas. Fiquei observando estas respostas e me reportei a
minha cena materna favorita..

Quando tinha seis anos estudava na terceira série primária e amava os trabalhos de casa, hora
que minha mãe fazia questão de sentar a meu lado, não para me ensinar porque sabia fazer
meus deveres mas para me olhar, para apreciar enquanto pintava meus desenhos e dizer ao
final da tarefa cumprida: – Tenho muito orgulho de você!

Minha mãe não teve oportunidade social de estudar, fato que amava, pois precisou trabalhar
para ajudar meu avô que ficou doente . Entretanto, apesar de sair de casa cedo com meu pai,
nunca abriu mão de estar com sua filha.

Me reportei então a perguntar a meu filho sobre a cena favorita de nossa relação. Ele me
contou sobre uma cena onde ele estava em meu colo olhando o céu e eu contando histórias.
Por um momento fiquei preocupada porque também trabalho muito e sempre me angustiava
quando tinha que ficar muito tempo longe deles.

Apesar de trabalhar fora do país e em constantes viagens pelo Brasil sempre me dediquei ao máximo a estar com meus filhos : Mayninha e Guigui, forma amorosa de me dirigir a eles. Se trabalhava muito em uma semana,
na outra eles tinham o fim de semana inteiro com a mãe em brincadeiras incríveis dentro de casa, as preferidas eram as cabanas na sala ou o “dia de dormir com a mamãe”! Dava muito trabalho preparar tudo para eles antes de viajar, agenda escolar, reuniões, vacinas , festas particulares de seus colegas, alimentação e na volta onde tinha que recuperar o tempo ausente e recolocar a casa em ordem.

Neste caminhar eu sempre dizia que meus filhos tinham avós, pai e neste momento todos eram elencados a participação efetiva. Não há dúvida que a avó materna tentava ser única mas eu consegui administrar esta necessidade quando nunca abri mão ou deleguei a outros o meu papel de mãe que foi um dos mais prazerosos.

Relendo as diversas experiências vale a pena refletirmos sobre o que está acontecendo com as mães do século XXI. Como terapeuta familiar percebo que as mulheres perderam a capacidade de planejar suas vidas. Escuto muito: -” Não tenho tempo para mim!”; ” Filhos, pense bem antes de tê-los”, ” depois que eles nascem não somos mais nós mesmos.”; ” Nunca mais sai com meu marido para namorar”, etc. Discursos fragmentados e falhos de pessoas que não estão constituindo seu sentido de vida e depositam nos filhos toda a sua energia. Não pode!

Ser mãe é uma parcela de nossas vidas, uma parcela muito significativa desde que você não abra mão de sua vida, de seus sonhos, de sua realização profissional e pessoal. O que temos assistido é a ausência de um movimento de amadurecimento dos jovens que muitas das vezes geram filhos sem a menor estrutura interna para o exercício de um papel de alta responsabilidade. Entretanto ganhar esta responsabilidade não significa abandonar a maior das responsabilidades – a construção de sua trajetória existencial. O marido, a esposa, os filhos são pessoas que agregamos a nosso eixo existencial e se perdemos nosso eixo criamos uma linha de fracasso familiar de proporções inestimáveis.

Os discursos: ” Dediquei minha vida a você e agora?”, ” Resolvo tudo e nada para mim. “; ” Deixei meus sonhos para trás para te criar!”, ” a adolescência dos meninos está acabando comigo” , ” fiquei velha só dando para vocês” acabam emergindo e lamentavelmente as pessoas acabam num processo de acusação sem fim. Estas expressões são explosões emocionais de pessoas que doam demais de si aos outros mas não planejam seu próprio tempo de cuidados. São pessoas que já ouviram muito: “Ser mãe é padecer no paraíso!”

A neuropsicologia informa que sem um tempo para si não há condições de sentir as nossas carências e criar estratégias de realização. Sem preenchimento emocional a partir de nossas escolhas ficamos secos, ressentidos e infelizes! Ao engravidar assumimos a responsabilidade de assumir um outro ser e sabemos – porque não somos mais crianças!_ que dali para frente a nossa vida será dividida com outro ser. Se temos um pai na história dividimos a três, mas se somos sozinhas a divisão é maior. Então o desafio é colocar no papel nossos sonhos e desejos e avaliar o tempo que disponibilizamos para atingir o alvo. Não ter tempo é discurso cartesiano e fechado. Ser mãe é enriquecer o paraíso!

É importante reconfigurar nosso discurso e dizer: – “Como vou criar um espaço para este sonho?” Se assim caminhamos há abertura e capacidade holística de evolução. Um filho não chega para ser problema e fechamento. Ele recebe este peso porque antes de sua chegada as mães já não estavam no rumo de sua alma. Muitas das vezes geramos filhos para justificar o retardamento dos sonhos e ocultar a falta de coragem de assumir novas escolhas, novas possibilidades porque ao fazer escolhas saímos da zona de conforto, confrontamos desejos com nossos pais , maridos e esposas e nem sempre as pessoas escolhem a sua felicidade. Preferem viver como todos vivem principalmente se forem rígidos nas escolhas também religiosas.

Não cabe deslocar ao filho a responsabilidade de nosso próprio movimento. Os filhos tem o movimento que plasmamos neles. Eles chegam vitalmente ricos mas criam problemas nas relações com os pais . Então, pais felizes e em busca de sua individuação ( processo de amadurecimento existencial), de sua realização são pais com capacidade de olhar, de perceber, de significar os filhos e de mostrar a eles que a vida tem a cor que pintamos. E eu considero que pintar a vida com os filhos foi a melhor experiência de minha vida. Mas não entendam que este discurso significa um caminho só de felicidade e prazer.

Ter filhos é trabalhoso, desprazeroso, irritante porque eles tiram a mãe de seu centro e obrigam a olhar a vida por outro ângulo. Se a mãe tem condições de flexibilidade universos diversos se apresentam . Se somos rígidos não conseguimos olhar o mundo sob o ângulo dos filhos.Olhar a vida sob o viés do filho não é aceitar o que eles querem, é um exercício de diferenciação perceptiva, de ampliação de imagens, sons e palavras para reflexões mais apuradas e em condições de orientações contextualizadas.

Como experiência pessoal aprendi muitas coisas. Minha filha é uma pessoa muito vaidosa e com ela aprendi várias técnicas de vestuário, de maquiagem, de lugares no mundo, dicas de tecnologia, de comunicação…..nossa! muitas coisas foram sendo incorporadas . Também aprendi a respeitar suas escolhas de vida que são diversas e diferentes da minha, trabalho árduo para uma mãe amorosa e preocupada. Com meu filho aprendi o mundo dos esportes, o mundo do relaxamento, o mundo das questões políticas e históricas. Mas vocês devem estar pensando: – Eles são como você! Sim…apresentei a meus filhos o mundo das artes, da história, da geografia , das paisagens diversas, das culturas, das diversas religiões e dos sabores porque sempre optei por investir nas viagens que me permitiam estar com meus filhos, mostrar o mundo, as culturas, os vestuários, os artesanatos apresentando o trabalho humano independente do valor material.

Percebo na minha filha esta apropriação imediata pois é publicitária e em meu filho a liberdade destas experiências. Na escolha de sua profissão : Relações Internacionais toda esta vivência está contida. Hoje ao olhar para tudo isto me sinto confortável de alertar aos pais e especialmente a mãe como primeiro objeto de amor dos filhos que “dar” deve estar vinculado a “significar”.

Quando damos muitos bens materiais perdemos a capacidade de afetivizar, de agregar aos filhos um sentido afetivo aos valores informados. Para amadurecer é preciso ter ausência, vazios para que nossos filhos busquem soluções próprias. Afinal, o que vale na vida? Unicamente SER FELIZ com as pessoas que nos amam e esta felicidade não é algo que desce dos céus para contemplar alguns.

A felicidade é um longo processo de escolhas, de construções, de reformulações e de possibilidades que abrimos na trajetória da vida. Estamos no mês de maio, dia de compras para as mães, propagandas intensas na TV, na rádio, nos painéis de rua lembram da mãe pelo ângulo do consumismo. É preciso pensar na mãe além das necessidades materiais. Há muitas necessidades que desconhecemos atrás do rótulo de “mãe”.

Então, cuidar do bem estar da mãe, de ouvir suas histórias, sua forma de ver o mundo, é a melhor forma de presenteá-las. E no cotidiano, quando a propaganda esquecer da mãe na procura de novos motivos para compras, que possamos continuar a admirar a pessoa maravilhosa que nos deu a vida, estimular seu progresso através de estudo, de busca de cursos que goste, participar de grupos de esporte…coisas que a enriqueçam como ser humano, afinal nossas mães são seres humanos falhos e ricos de possibilidades. Cabe rompermos nosso olhar unilateral e vermos nossas mães além do que cristalizamos socialmente, afinal espero que vocês tenham mães além do padecimento no paraíso e que suas mães tenham cuidado de vocês como uma escolha de vida! Eu fui escolhida…escolhi meus filhos e espero que vocês estejam escolhendo SER MÃE QUE ENRIQUECE O PARAÍSO!

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