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Limites, família e saúde neuropsicológica

Por Rosa Prista

Foto: Pixabay

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” Nós não vemos as coisas como elas são. Nós as vemos como somos” Talmud

Na praça “Xavier de Brito “, no Rio de Janeiro, um bloco de carnaval  anima os transeuntes e moradores. Várias barraquinhas de bebidas e comidas oferecem opções interessantes. Passeando pela praça, paro numa barraca de pinturas de rosto e, enquanto aguardo a profissional que vai me maquiar, visualizo uma criança fantasiada de “super herói” recolhendo latas de cervejas e refrigerantes dentro do chafariz  abandonado. O chafariz  não possui documentação oficial por falta de registros mas foi incluído como obra da Fundição Francesa Val d’ Osne, feito de ferro fundido. A bela peça  infelizmente não era apreciada pelas crianças e adultos. Pelo contrário, com a permissão dos pais as crianças rabiscavam os anjos em torno da peça, jogavam serpentinas, pulavam e se penduravam nas imagens de arte do início do século. A cena daquela criança que recolhia as latas e colocava do lado de fora do chafariz contrastava com a impulsividade de crianças e adolescentes indiferentes à obra de arte do lugar.

Comecei a olhar mais atentamente a cena e enquanto a criança jogava as latas, uma senhora, que soube posteriormente ser a mãe, recolhia e jogava nas latas de lixo generosamente colocadas na praça. Neste momento, me emocionei porque no mundo atual aquela senhora era outra obra de arte. Uma arte humana muito bem posicionada. Destacava-se das mães que indiferente ao que seus filhos faziam tiravam fotos de recordação. Me aproximei desta senhora e disse a ela que estava emocionada com o ato dela . Ela me conta de forma simples e clara  que seu filho espontaneamente realiza estas ações desde pequeno pois se preocupa com o planeta Terra. Uma senhora simples, mas rica, porque seu filho não realiza a ação ecológica por acaso. Recolhe porque esta mãe ofereceu a ele outros olhares e ele se apropriou com oito anos de uma postura ética em sintonia com as necessidades do século XXI.

Vale a pena lembrar do prêmio Nobel de Economia nos ano de 2000. O americano James Heckman, formado em Princeton e durante 36 anos é professor da Universidade de Chicago. Seu trabalho tem sido estudar os efeitos dos estímulos educacionais oferecidos às crianças nos primeiros anos de vida – na escola e na família. Em seus estudos mostra que há habilidades de dois tipos a serem desenvolvidas – as abstratas e lógicas e as habilidades não lógicas ligadas ao auto-controle, à motivação e ao comportamento social.

Na sociedade atual temos reduzido de forma assustadora os estímulos escolares para aspectos unicamente racionais, prontos e exigido reproduções. Nas palavras do exímio pesquisador: ” Na educação, há sempre a tentação de reduzir tudo à luta do capitalismo contra o marxismo. Um país ganha muito quando retira o debate do terreno político e o põe sobre bases científicas e econômicas.”

As escolas têm papel fundamental mas quem escolhe a escola são os pais que mostram através destas escolhas os valores familiares. Merece relevância o trabalho da “Escola de Pais ” do CEC – Centro de Estudos da Criança conhecida como Consultoria ENCONTRE-SE! que mensalmente lança temas e discussões para reforma de pensamento dos pais baseando sua linha na versão da complexidade humana. Neste programa de relevância social, incentivos aos pais provocam impacto em seus ambientes. Propostas simples como contar histórias, apresentar uma obra literária ou cênica, ir ao teatro e outros fornecem base em evidências . Ao despertar nos pais o seu poder pessoal, crianças são lançadas desde pequenas no aprendizado cognitivo, emocional, psicomotor e relacional. Isto tem excelente custo-benefício a um país.

As cenas visualizadas são o retrato de nosso país. Há ausência do papel da família na construção do mundo interno dos filhos. Temos perdido a grande ferramenta que nos torna humanos: o diálogo que constrói, que emite o “sim” e o ” não”. Sem estes parâmetros não criamos os desafios, as oportunidades, as críticas e portanto não oferecemos ao cérebro o alimento que o “corticaliza” – processo de amadurecimento cerebral. Esta ausência de estímulos corretos na infância está associada a indicadores ruins: criminalidade, evasão escolar, gravidez na adolescência, índices de tabagismo, bullying. Há ignorância sobre o que a ciência já desvendou mas a questão mais relevante é a ausência de políticas públicas voltadas as famílias . Para isto é preciso perceber que há algo errado. Sim, há algo muito errado nas configurações familiares inclusive na visão do imaginário social  que coloca a família no lugar positivo de bem estar e cuidados de crianças e adolescentes . Só há família quando há disponibilidade dos membros em dialogar que é um processo complexo e contínuo de articulação de vários pontos de vista. E educar dá trabalho, construir  persistência é exaustivo e construir vínculos  é processual.

O papel da escola entra em segundo plano. Mas não cabe ao professor educar e mostrar valores. A formação de caráter, de idéias, de valores e argumentos são da tarefa de pai e mãe. Ao professor cabe a mediação de relações pedagógicas …e principalmente basear suas ações profissionais em bases científicas e não em políticas partidárias. A proposta da escola é potencializar as crianças e adolescentes pois elas chegam  ávidos de conhecer e o enriquecimento de estímulos é a tarefa maior desta instituição.Mas dependendo da forma como educamos as crianças podemos aniquilar sua capacidade perceptiva, de memorizar e de criar.

Nossas crianças estão sendo  preenchidas de conteúdos inúteis e desconectados da realidade. Será que em algum momento os professores daquelas crianças, que destruíam um patrimônio público, não teriam ensinado a organizar a sala de aula, o refeitório, a sua casa? Não teriam falado sobre os prejuízos do lixo nos rios? Não teriam trabalhado com material reaproveitado em suas produções? Então, porque não colocavam em prática? Em primeiro lugar porque o ensino não conecta-se a necessidades locais, do país e do planeta e sim ao cumprimento de uma planilha de informações desinteressantes. Em segundo lugar, a família autoriza o processo. “É carnaval,  deixa…” ou ” tem garis para isto”.

Enquanto todas estas reflexões passavam pela minha mente, olhei para a singela senhora . Agradeci a ela a conversa e comecei a jogar  as latas que seu filho recolhia no lixo…

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