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Pinóquios ou pessoas?

Por Rosa Prista

Foto: Pixabay

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A espécie humana vem se submetendo a um drama de aprisionamento, de submissão e de controle, onde corpo, inteligência e desejo são dissociados e a autonomia de pensamento negada. Os fatos cotidianos em nossos canais de televisão apontam que a violência urbana é o sintoma de algo muito sério que vem ocorrendo em nosso dia a dia. Vamos pensar nas instituições que nos constituem como humanos – a família e a escola.

Rubem Alves (1984) fala deste aprisionamento através do conto Pinóquio, que considera uma história-retrato da realidade da criança; “depois de levar a criança a se identificar com o boneco de pau, a trama progride proclamando que é necessário ir à escola para se virar gente.” E continua: “Caso contrário o destino inevitável é virar burro, com rabo, orelhas, zurros e tudo mais que pertence à burrice.”

Mas, que escola é esta?  A que transforma crianças em bonecos ou aquela que mantém a evolução do Homem? Prefiro manter o conto original de Pinóquio, devolvendo ao Homem a capacidade de autonomia, de potencialidade, de crítica, de consciência de seus recursos e limites a partir da vivência deste ser, na descoberta de si e do outro. Mas não podemos deixar de destacar que nossas escolas – públicas e particulares estão perdendo o foco de sua existência e destituindo-se de seu valor maior – construir Homens e não apenas alunos!

Para compreendermos a possibilidade de sermos bonecos ou pessoas é preciso ir na origem de nossa constituição e lembrar a psicanalista  Piera Aulagnier.  Em sua obra, ela informa que, quando somos bebês vivemos uma “violência primária”, mas necessária pois a mãe interpreta os sons de seu filho, outorgando significados. Segundo Aulagnier (1979): “violência primária corresponderia à ousadia de arvorar-se competência para interpretar as manifestações pulsionais do bebê, interpretar as emissões de sons envoltos em movimentos e ir significando as emoções que neles estão impregnadas”, isto quer dizer que para sobreviver a mãe interpreta a seu modo o choro do filho mas é preciso perceber aos poucos que o choro diferencia em significados. Algumas mães não fazem esta diferenciação e muitas patologias se iniciam neste significativo espaço de convivência.

Outra grande psicanalista, Alicia Fernandez, no ano de 1992 em contato direto comentou sobre esta questão: “É violência contra uma suposta autonomia porque neste momento, é a mãe que pensa pela criança, que atribui sentido às suas manifestações.” Fato verdadeiro e necessário mas também é fato que neste momento dividimos entre o processo de construção de saúde ou de patologia pois vai depender do estado emocional da mãe em autorizar seu filho a crescer. A figura paterna é chave neste momento pois é este que vai ser cúmplice no processo de diferenciação do filho.

Muitos pais se ausentam deste papel e permitem que a mãe volte-se unicamente ao filho tornando-o parte de seus desejos.

O processo de “violência primária é fundamental, pois a partir do desejo da mãe irá constituir-se um terreno propício para surgir o desejo do filho, que sendo respeitado na sua diferença, originalidade poderá constituir uma dialética entre estes desejos.”  Constituída esta dialética, a palavra poderá surgir com dupla finalidade: de satisfação pulsional com o desejo de voltar-se para o outro já que sua primeira experiência (com a mãe) foi prazerosa, a tendência é buscar novas parcerias, do pai, do professor…

Entretanto, se o processo não ocorrer naturalmente, se o adulto-mãe, pai, professor não permitir o surgimento do desejo infantil poderá se constituir a violência secundária. FERNANDEZ (1992) informa:

Todo o pai se encontra ante um duplo desafio: Como construir uma escuta paterna/materna que possa esperar, suportar, descobrir a originalidade e a diferença no enunciado da criança, com o que esperava e  desejava  ouvir,  e  como  outorgar  sentido às expressões da criança  sem  apagar o espaço — em construção no tempo — de uma  autonomia de pensamento que redundará em  possíveis  e  necessárias oposições e enfrentamentos com o desejo deles.

Muitas das crianças que chegam ao meu consultório apresentam quadros de fechamento, de não evolução da linguagem e de contato social que são encaixadas no “transtorno do espectro autístico”. É preciso ter atenção pois a “violência secundária” típica das famílias onde o pai se afasta do comprometimento de educação dos filhos, a mãe se perde psiquicamente e não autoriza a diferenciação do filho. Este por sua vez precisa sobreviver e mantém-se perdido entre duas dimensões. O transtorno psicótico se estabelece mas pode ser revertido dependendo do encaminhamento precoce da criança e da família.

Nossa sociedade possui um enquadre bastante contraditório. Teoricamente foca na autonomia do ser, na liberdade, na descoberta, na criatividade; na prática, visualiza-se o inverso pois educar implica em comprometimento, implica em descobrir novas  possibilidades humanas e em construir novos vínculos.

A transformação de pessoa em boneco se faz desde tenra idade. Na vida intra-uterina, o bebê inicia seu contato com o mundo de forma energética e viva. Prepara-se para ser ativo num mundo de exigências. No Brasil é praticamente nulo o atendimento pré-natal que inclua a preocupação psico-afetiva e relacional entre mamãe e seu bebê. A indução ao parto cesárea é extrema, o apelo a amamentação é exercida sem levar em conta o direito da figura materna e o estado emocional da mesma (depressão pós parto — reestruturação  da imagem corporal). A mãe tem que dar o leite de seu peito, é um direito da criança, diz a propaganda. Sem negligenciar a importância do leite materno, se faz necessária atenção para o tipo relação afetiva que se está estruturando. O atendimento nos hospitais, na maioria dos serviços, é desvinculado do lado humano.  A impossibilidade de garantia e assistência às mães, que logo tem que retornar aos empregos, ausência de locais adequados para os bebês ficarem. A existência de creches que pouco se preocupam com o aspecto da evolução humana são os primeiros pontos a serem analisados na destituição da integridade do ser humano. Aos poucos este Ser aprende a controlar seu desejo, a seguir o padrão, a norma.

Um exemplo típico do nosso cotidiano é observar uma criança tentando subir a escada de um escorrega. A maioria dos adultos não permite a criança exercitar suas habilidades psicomotoras e imediatamente segura o corpo da criança e lhe dá o seu movimento…

Chega a idade de ir para a escola. Na Educação Infantil aprende a controlar a hora de fazer suas necessidades fisiológicas. Não é seu corpo que diz a hora de precisar usar o banheiro, mas o professor, que no apelo de uma falsa ordem, impede este organismo de se auto-regular.

O abuso no uso de folhas mimeografadas com desenhos prontos para a criança copiar ou pintar na cor determinada, impedem que a coordenação motora encontre a organização de um Ser. Para tal é necessário espaços amplos, respeito e incentivo. A antecipação destes momentos vai prejudicando, interferindo e restringindo funções psiconeurológicas essenciais ao Homem. Luria (1966), famoso neuropsicólogo alertou que “desde os primeiros segundos de vida é o movimento que vai criar os “imputs” necessários para uma necessidade de organização sensorial e, por conseguinte todo o desenvolvimento das estruturas perceptivas que irão, por sua vez, permitir ao Homem ser um animal capaz de realizar movimentos para alguma coisa.”

Este processo não se encerra aqui, tende a agravar-se a partir da alfabetização como se este processo se iniciasse aos seis anos. Grande engano!!!  A leitura do mundo é inscrita primeiro pelos pais, depois pelos outros adultos que numa relação dialética permite avançar de oriundos de informações contextualizadas do meio, significadas pelo próprio sujeito que por sua vez provocam novas informações e modificações ao meio.

Chegam o segundo e o terceiro graus e o desrespeito as etapas básicas e fundamentais à evolução humana continuam. O amadurecimento do adolescente não é estimulado e com a atual reforma da educação espera-se que eles escolham. As pessoas só podem escolher quando elas possuem metas que constituem seu sentido de vida. E o nosso ensino universitário, local de excelência na construção do conhecimento científico, tem produzido mudanças significativas para o coletivo? É claro que não! A conclusão deste processo é: “Não seja você, não acredite em você. Faça como todo mundo!”

A Neuropsicologia foca exatamente no contrário: Faça diferente! Revise seus paradigmas pessoais, avalie o que você valoriza hoje na sua vida, seja capaz de correr riscos e de descobrir quem você realmente é. Assim as crianças e adolescentes que estiverem sob a sua responsabilidade terão um adulto capaz de ajudá-los a se diferenciarem e se tornarem pessoas!

 

 

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