Copemac-970×90

O navio que roubou o pôr do sol

Por Victor Gabry

Um barco que me roubou o pôr do sol

Um barco que me roubou o pôr do sol

Quase não havia vento naquele pôr do sol. Do horizonte, em seus derradeiros momentos, o gigante sangrava em tons de laranja, vermelho e amarelo, que tingiam o marrom das montanhas, o tumultuoso do mar e as nuvens em profusão, esporádicas como espasmos impressionistas. Desde as mais felpudas, desenhadas por mão divina, àquelas que, desfiadas como tecido, se espalhavam pela atmosfera, todas eram coloridas pelas derradeiras cores do Sol posto. Nos céus, o azul era uma paleta, do mais profundo anil, escondido por detrás das montanhas às minhas costas, até o invisível clarão verde que, reza a lenda, esconde-se por trás do pôr do sol.

A tênue linha que separava o céu do mar estava amontoada por nuvens – as intransponíveis nuvens cinzentas como chumbo, distantes demais para que se divisasse mais do que seus contornos. Elas engoliam o Sol antes que esse se deitasse sob o mar, escondiam-no, e era apenas por nesgas e rasgos em sua extensão que se vislumbrava-o, gigantesco, alaranjado, cansado da trajetória celeste. Era possível divisar, no céu, as sombras das nuvens, os feixes de luz que, como tecidos pendendo do firmamento, delineavam a abóboda celeste.

O laranja também tingia a areia da praia. Por vezes, alguns grãos cintilavam, como se preconizassem a noite estrelada que viria em seguida. Vários guarda-sóis, de abertos a fechados, solitários ou resguardando alguma mesa de plástico, tinham suas cores foscas enobrecidas pelas cores do sol poente. Corpos besuntados em óleo ou apenas na água do mar, esmeralda em sua orla, anil em seu seio, resplandeciam, cada silhueta e curva exaltada por aquelas tênues linhas de um nobre laranja. O verde, onde existia, fosse nas palmeiras esporádicas, fosse na restinga corajosa, fosse na grama sob meus pés, contrastava de maneira única com aquele espetáculo.

Eu estava apoiado em um parapeito de vidro, guarda-corpo para aqueles que descessem o morro. Um ponto elevado onde quase não passava ninguém e de onde eu tinha plena vista da praia, seus arredores, e mais além, dos morros do outro lado da Baia e suas respectivas praias. Pensei, por um segundo, que em algum lugar alguém aplaudiria esse espetáculo. Não poderia culpá-los – muitos lugares dariam cenários dignos dos aplausos que eu aqui menciono. Porém, esses mesmos cenários, eu tinha certeza, jamais seriam páreos para aquela profusão de cores, a qual até mesmo o vento se calara para ver.

Foi quando eu reparei. As nuvens amontoadas na linha do horizonte não chegavam a tocar o mar onde o mundo faz a curva – permitiam que os mortais degustassem dessa nesga de Sol que seria a última do dia. Porém, no ápice do evento, quando a última metade começava a submergir por detrás das águas, o movimento do navio me chamou atenção. Um barco comprido, que, distante, não sabia dizer se era marrom, enferrujado, ou brilhantado pelo mesmo pôr do sol que dava mais vida a tudo. Vinha constantemente, nem por demais veloz, que logo sumisse de vista, nem por demais lento, que parecesse estático. Vinha a seu próprio tempo, como fazia o Sol para se pôr.

Não consegui não achar engraçado. Pois conforme o ápice da experiência se aproximava, conforme a ansiedade se acumulava, o navio deixava clara a sua intenção. Roubar a cena, nesse caso, ganha uma conotação muito mais cruel – os tripulantes realmente roubariam para si o maravilhoso pôr do sol, enquanto a mim sobraria a visão do que provavelmente era um cargueiro ou petroleiro voltando para o Porto, cortando a luz do sol poente. O absurdo da situação era tanto que a gargalhada interna transbordou em um sorriso enviesado, como aqueles que os pais dão ao verem os filhos aprontarem e não lhes chamarem a atenção, pela simples graça de ver a bagunça dos pequenos.

A ansiedade formava uma represa em meu interior, mas mais do que isso, a vontade de ver qual seria o efeito desse barco, essa embarcação suja e tosca, contra esse espetáculo da natureza. A qualquer momento um se interporia ao outro, e eu teria a visão do navio que me roubara o pôr do sol. Curiosamente o vento soprou naquela hora, pequena brisa que resvalou em meus cabelos, mero sussurro de expectativa. Eu sei meu amigo. Também estou.

O barco cruzou o Sol. A proa tocou o Sol e logo a popa, bombordo, estibordo, e cada tripulante que ajudava a manejar a grande embarcação tinham devorado o laranja do Sol. O barco se tornara, de súbito, negro, ofuscado pelas luzes que nele resvalavam e buscavam meus olhos, prêmio de consolação por ser vítima de um dos acasos do mundo. Mas não foi sem sorrisos que recebi esses prêmios – pois além dos azuis do céu, dos tons de carmesim das nuvens, dos verdes coloridos dos mares, agora eu ganhava a silhueta negra de um barco. E eu poderia andar pouco mais para a direita ou para a esquerda, ou subir apenas um pouco o morro e vislumbrar o espetáculo em sua pureza. Mas eu compreendia que esse barco não poderia ter passado lá por acaso.

Satisfeito, dei uma olhada para os lados, para ter a certeza da minha posição como felizardo – ninguém mais estando na mesma altura que eu, talvez ninguém mais tenha visto o barco e seu contorno negro no horizonte. Pelo motivo que seja que tenha levado o capitão e a sua tripulação aquela posição, entendi que estávamos perpetrando a mais antiga forma de comércio de que se tem notícia, o escambo. Que eles ficassem com o pôr do sol que os demais teriam. Que eles ficassem mesmo com um pôr do sol particular, estando eles na linha do horizonte, tendo por companhia o mar.

A mim ficaria a imagem daquele barco, uma silhueta negra contra uma nesga de Sol laranja, encimado por nuvens coloridas e sustentado por um mar em profusão. Imagem essa que me pertencia e que sequer a descrição fará jus. Mas que me pertence, pois creio, e posso ser um pouco arrogante ao dizê-lo, mas creio que esse espetáculo, tão singelo, fora feito exclusivamente para mim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *