Cinemark – 2

Sendo feliz com o cabelo que você tem (ou não tem)

Por Gizele Toledo

Eu brincando com peruca rosa, um mês antes da queda de cabelo

Eu brincando com peruca rosa, um mês antes da queda de cabelo

No início do ano, passei por um problema sério com queda de cabelo. Meus fios, longos e aparentemente saudáveis, começaram a cair diretamente da raiz em tamanha quantidade que me causou desespero. Eram bolos e mais bolos de cabelo caindo sem qualquer explicação. Fiquei tão assustada que, desejando ter certeza de que não era delírio meu, resolvi contar os fios. Em uma única escovada pela manhã, foram 352 fios perdidos. “Ó, céus! O que será de mim sem os meus cabelos? Vou ficar careca!”, pensei. E entrei em pânico.

Mais do que rapidamente, fui à minha dermatologista e pedi socorro. Todos os exames deram normais. Talvez algum estresse? Talvez a dieta com a rápida perda de peso? Talvez uma predisposição genética? Seja lá o que tenha sido, graças a Deus e à expertise da minha médica, o tratamento deu certo. E, depois de conviver meses com várias falhas no couro cabeludo, dias e dias vendo meus sedosos fios descerem inteirinhos aos montes pelo ralo, finalmente, os remédios começaram a fazer efeito. Aturando viver com o cabelo todo melado de remédio, com muita paciência e disciplina, após alguns meses os primeiros fios novos começaram a aparecer, arrepiados.

Os medicamentos mudaram a constituição dos meus fios, que passaram a nascer mais escuros e crespos. No momento, estou dependente de tiaras, tic-tacs e outros adornos que possam disfarçar o crescimento rebelde de fios que não quero domar, temendo qualquer química que possa prejudicar meu tratamento. Imagino que, tanto para homens quanto para mulheres, perder os cabelos seja algo um tanto doloroso. As mulheres, então, não esperam passar por qualquer problema de calvície e, portanto, nem de longe estão preparadas para encarar isso.

Fato é que passar pelo turbilhão de emoções que esse problema me trouxe me fez refletir bastante sobre autoestima, aparência e cabelos. Num primeiro momento, sofri pensando que agora me tornaria feia e triste. Num segundo momento, ponderei: “Eu não sou o meu cabelo, sou muito mais do que isso, tenho a minha beleza interior”. Depois tive uma ideia: “Se eu ficar careca, vou fazer desse limão uma limonada e me divertir usando perucas de várias cores e tipos, compradas em sites de cosplays”.

Após alguns choros e muita entristecida, comecei a sacudir a poeira e dar a volta por cima. Minha amiga Paula dizia: “Faça o que está ao seu alcance. O que não depende de você, entregue para Deus.” E eu tentava me desapegar dos meus cabelos, dos quais eu sempre gostei. Mas não existe um botão de desligar, para nos fazer parar de pensar em um problema. Só que talvez tudo isso tenha acontecido para eu praticar o desapego, que é tão importante para nossa evolução espiritual. No auge do meu problema, fui convidada com o coral a cantar em um hospital para crianças com câncer. Ver aqueles pequeninos carequinhas, passando por quimioterapia, foi um choque, e fez meu problema parecer ridiculamente pequeno. Por que fui parar justo ali? Deus queria me dizer alguma coisa, pensei.

No fundo, eu sabia que havia algo de valioso a ser aprendido com tudo aquilo. Resolvi enxugar as lágrimas e tentar ver a situação com o coração aberto. Naturalmente, comecei a olhar nas outras pessoas cabelos que antes eu achava feios e passei a ver beleza neles. Pensei que muitas dessas mesmas pessoas talvez não gostassem de seus próprios cabelos. Mal sabiam elas que passar pela perda desses fios seria muito pior. Devemos dar valor ao que temos e amar o que temos. E não menosprezar. Não importa como seja nosso cabelo, ele está ali nos servindo muito bem. Pior seria não tê-los. Sob o risco de ficar careca, comecei a achar bonito qualquer, absolutamente qualquer tipo de cabelo.

Depois, foi engraçado, como comecei a achar bonito o ser humano em geral, com ou sem cabelo, cabeludo(a) ou careca – não importava mais. Todas as pessoas eram bonitas, cada qual do seu jeito. E comecei a ver beleza onde antes eu não via. E todo aquele drama que eu criei a respeito da minha situação começou a tornar as pessoas mais belas aos meus olhos.

Chegou um momento em que eu decidi: “Não importa. Eu vou ser feliz com ou sem cabelos.” E até hoje os meus cabelos estão meio sem jeito e talvez leve muito tempo até voltarem ao normal, se voltarem. Mas, por ironia, os cabelos fracos me fortaleceram e a “carequice” deixou o mundo ao redor muito mais bonito. Vamos ser felizes com o cabelo que a gente tem, combinado? Ou sem cabelo, se for o caso. Nós, afinal, não somos os nossos cabelos. Nós o temos (ou talvez não), mas não vamos confundir o que temos com o que somos. Hoje eu quero um mundo que se importe menos com a nossa aparência e mais com a nossa essência. Mas, como esperar isso dos outros se essa limpidez não começar por nós?

Que nosso interior resplandeça mais do que qualquer madeixa! Quem mais precisa de hidratação, reconstrução e cauterização não são nossos cabelos, mas sim os nossos preconceitos. Esses sim precisam de todos os cuidados. Torço para que a gente não precise ficar careca para saber. Escrevo este texto por um mundo com menos fios de ilusões e mais fios de conexões. Esses fios sim, eu os quero sem queda e sem nós.

Continue acompanhando a coluna Mania de Ser Feliz, que traz reflexões sobre a vida e a felicidade.

 

Gizele ToledoGizele Toledo é jornalista formada pela PUC-Rio, especialista em Jornalismo Cultural, pela Uerj, e em Docência do Ensino Superior, pela Ucam.  Apaixonada pela vida, atualmente mergulha nas descobertas a respeito da felicidade, inspirando-se nos conhecimentos de escritores como Eckhart Tolle e Louise Hay. Gizele Toledo escreve contos, poesias, artigos e é autora do blog www.gizeletoledo.blogspot.com, intitulado Mania de Ser Feliz. Atuou como apresentadora de TV, repórter, produtora, roteirista, mestre de cerimônia, assessora de comunicação social. Em sua trajetória, frequentou escolas de jazz, ballet, sapateado, canto coral, teatro, redação, entrevista, interpretação para TV, modelo, manequim, empreendedorismo, inglês, francês, espanhol, alemão e Língua Brasileira de Sinais. Gizele Toledo é colunista da Folha do Rio de Janeiro, produzindo textos e vídeos que trabalham a autoestima, elevam o ânimo e motivam, com dicas para uma vida mais satisfatória e feliz. Acompanhe o trabalho da autora aqui e também no blog www.gizeletoledo.blogspot.com, no Facebook www.facebook.com/gizeletoledo2, no Instagram @gizeletoledo e no canal “Gizele Toledo” do YouTube.

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One thought on “Sendo feliz com o cabelo que você tem (ou não tem)

  1. Paula

    Que lindo! Quanto aprendizado em um texto só!
    Parabéns pelo esforço e superação. Parabéns por mostrar que é possível ir além do problema e redescobrir-se ao encarar a dificuldade com coragem. Parabéns por compartilhar sua experiência e, assim, estimular outras pessoas.
    Mas… Gizele, seus cabelos sempre foram e ainda estão lindos, mesmo quando estiveram menos cheios.
    bjão

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