Hinode – 1

Deixe que o amor lhe ensine e lhe salve

Por Bruna Tschaffon

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O Amor é o que há de mais puro no Universo, constituindo sua força-motriz. Esta sempre foi e sempre será a minha absoluta convicção e premissa da qual desembocam os mananciais subsequentes de reflexão sobre o tema. Como toda luz em um mundo de sombras, nossa visão turva não consegue lidar racionalmente com sua pureza intimidante. Portanto, foi preciso que a humanidade deturpasse o significado do Amor, revestindo-o com vestes que não lhe pertenciam e atribuindo-lhe características que o desfigurassem. Foi assim que nós crescemos alimentados a mentiras sobre o que o Amor é e como devemos vivenciá-lo.

Desde que somos pequeninos, começam a nos ensinar que o amor deve ser merecido. Conquistado. Obtido após um processo de dominação. Tenha um comportamento moldado e seus pais o retribuirão com beijos e abraços em vez de castigos. Dizem-nos, conforme adentramos na adolescência, que, para que sejamos amados, temos que nos fazer atraentes de algum modo. Devemos ser esteticamente belos, ou ricos, ou donos de um intelecto sedutor. Ensinam que o amor machuca, dói e que é assim mesmo: uma dualidade esquisita. Não poderíamos pensar num Amor que não trouxesse consigo um pouco de ciúmes, possessividade, obsessão. Como ousaríamos ser felizes sem aceitar que o Amor também dilacera? Seria o mesmo que ambicionar que uma rosa nascesse sem espinhos.

O que aconteceu foi uma inegável projeção das nossas inseguranças e falhas no Amor. O Amor, que sempre foi imaculado, se viu alvo de críticas que nunca mereceu. É óbvio que a maioria das pessoas me acusa de ingênua e flagrante idealismo ao ouvir ou ler minha teoria sobre o Amor. Mas eu ainda tenho comigo que essa minha conclusão se trata da mais aguda percepção da degeneração que temos imputado a um sentimento tão nobre. Ao sentimento capaz de redimir a humanidade.

Quando amamos e nos tornamos ciumentos, isso não significa que o Amor é intrinsicamente causador dos ciúmes. Significa que nós permitimos que nossa insegurança o contaminasse e todos os problemas daí subsequentes são decorrências do fato de que nós, seres limitados pelas nossas falhas e compulsões, temos a capacidade de amar, porém não plenamente, uma vez que ainda temos que permitir que o Amor nos purifique. Quando amamos e nos tornamos possessivos, significa que deixamos que nosso egoísmo quisesse se apropriar do Amor que não lhe pertence. Nós não somos donos do Amor, somos seus servos.

O Amor não machuca. Não dói. O Amor cura, sara, é remédio para as feridas. O Amor é belo porque se sacrifica. O seu poder destrutivo não é para nos trazer aflições por sadismo, mas tão somente para suprimir o nosso ego em prol do outro para nossa elevação espiritual. Eu acho que um dos exemplos mais nítidos do quanto o ser humano pode chegar perto de amar sem restrições, à beira de tocar a sua pureza com mãos afoitas, é ver como um bom pai ou uma boa mãe (sabemos que, infelizmente, nem todos o são) se sacrifica puramente pelo filho (a). Um bom pai ou uma boa mãe não hesita em entregar a própria vida para proteger a sua prole. O Amor é tão puro que faz com esqueçamos cada vez mais de nossos instintos de dominação e autopreservação para que aprendamos a nos entregar sem esperar algo em troca. Amamos porque amamos e ponto final.

Amar é difícil pra caramba, mas é de uma beleza magistral. Não culpe o Amor. Nunca. Sirva-o. Deixe que ele lhe ensine e lhe salve.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e tem dois livros publicados: seu primeiro romance, “Lítio”, pela Editora Giostri, à venda na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura; e o e-book de poesias “Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais”, à venda na Amazon e no site da Livraria da Folha. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia, no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora) e no youtube (www.youtube.com/c/BrunaTschaffon)

 

 

 

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