Salto Fino 1

Show de Interlúdio

Por Victor Gabry

Um pôr do sol caracteriza-se pelo maior espetáculo de luzes que o céu se dá ao trabalho de ceder aos espectadores na terra

Um pôr do sol caracteriza-se pelo maior espetáculo de luzes que o céu se dá ao trabalho de ceder aos espectadores na terra

Um pôr do sol caracteriza-se pelo maior espetáculo de luzes que o céu se dá ao trabalho de ceder aos espectadores na terra. Como um grande reality show, ele anuncia o fim de um quadro e começa outro. Normalmente, ele nos tira do universo cotidiano, onde ostenta-se o orgulho do trabalhador e as peculiaridades de um dia a dia que contém, como ostras no mar, suas pérolas. São os olhares de esquina, sorrisos discretos, romances que começam pequenos em conversas de ônibus e amizades que duram enquanto durar a permanência de dois estranhos no metrô, entre as estações da Uruguaiana e Botafogo. São os músicos de rua e os indigentes que perambulam nas redondezas, assim como os almoços corridos dos centros que, como foles, se enchem e se esvaziam de gente. É o show das filas em bancos, dos vendedores ambulantes em trânsitos, dos carros que vêm e vão, do passeio da dona com o cachorro, da aula vespertina, dos amantes ilegais. Esse é o show que o pôr do sol anuncia encerrado quando começa.

Por outro lado, tamanho espetáculo não poderia se restringir ao fim de um quadro ora cômico ora épico desse seriado. Não. A multiplicidade de cores e luzes é incrível demais para comportar apenas um aspecto em seu interior, e por causa de show tão fantástico, a humanidade inventou outro espetáculo para lhe fazer jus: a noite. E ela foi feita com esse intuito, com todos os seus gatunos e todas as suas senhoras, com todos os seus jovens desajuizados, e seus pais, não tão melhores assim. É na noite também que ocorrem as histórias de mistério, que assim como os sonhos de quem dorme, se misturam na névoa que vai embora pela manhã. O dia é do canário da terra a piar em uma árvore e do mico travesso descendo pelos postes. A noite é do piar da coruja buraqueira e do esvoaçar das asas do morcego. Charmoso, como só aparenta aqueles que nasceram para ser diurnos e desafiam a ordem natural. A noite tem seu charme. Seja na Lapa, seja em Niterói, seja subindo as ruas de uma favela sem nome.

Todo um espetáculo para justificar o pôr do sol.

O pôr do sol que acontece aqui no caso é simbólico. Nenhuma foto ou texto algum seriam capazes de lhe fazer jus; por isso, aludimos a ele, eu e meu texto, e a foto e sua fotógrafa, para falar desses tempos de pôr do sol. Pois é isso meus caros, o que proponho que enxerguemos, que se estende à nossa frente conforme batemos palmas em alguma praia do Rio de Janeiro. Agora a natureza se prepara para dar “tchau” a um passado, de dias monótonos, de coisas corriqueiras, e nos apresentar o show que é a noite.

Talvez possamos ver as coisas de outro ângulo. Visualizar as manifestações de apenas três anos atrás como o auge da noite. Para outros foi ver suas passeatas tendo resultado – para alguns, sentir que as suas foram em vão. Diriam uns que na verdade estamos no alvorecer de um novo dia, com seu brilho e sua luz. Mas apenas o alvorecer é assim tão brilhante. Uma vez posto no céu, lembramos de pôr no carro a pasta de couro e ir em direção ao escritório. Posto dessa forma, diria que a noite está começando. E vou dizer um pouco mais sobre a noite.

Ela começa devagar. Aqueles que dela se aproveitam dormem durante o dia. Descansam, renovam suas forças, se preparam para desafiar a ordem natural do ser humano, a ler-se, dormir à noite, acordar de dia. Conforme seus agentes se preparam ouve-se um som mudo de coisas acontecendo. É durante a madrugada que os indigentes são gente, que os roubos são apertos de mão, e é durante a noite que as luzes incertas da balada piscam, escondendo imperfeições, delirando os sentidos. Durante a noite tenta-se explodir uma bomba em um show durante a ditadura militar. Durante a noite um presidente dá um tiro no próprio peito. Durante a noite articulam-se os sorrisos a serem dados na manhã seguinte.

Estamos nesse momento nesse show de interlúdio, esse momento de nos levantarmos e aplaudirmos o pôr do sol. E eu abdico da fantasia de narrar a convenção inútil das crônicas do dia a dia para escrever uma com um pouco mais de significado. Que nos preparemos para essa noite – que tanto pode acobertar o roubo, como a revolução.

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