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Sobre Pokemon go, liberdade e Casimiro de Abreu

Por Bruna Tschaffon

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Se você não mora em Vênus, Marte ou numa galáxia muito distante, já deve saber que a mais nova febre do momento é o chamado “Pokemon Go”. Qualquer pessoa pode baixar o jogo no celular, mas, diferentemente dos demais jogos no mercado, ele exige a “caça” aos pokemons, fazendo com que o jogador saia de casa e procure as criaturinhas nos mais diversos lugares. Pela originalidade, “Pokemon Go” virou uma sensação no mundo inteiro e causou cenas engraçadas de multidões reunidas devido ao aparecimento de um pokemon raro em determinado lugar.

Como tudo que chama atenção, dividiu opiniões rapidamente. Há quem diga que os jogadores estão alienados, dissociados da realidade, controlados por um jogo infantil. No facebook, circulou uma imagem na qual um pokemon guiava um menino cuja cabeça estava vidrada no celular, em notória crítica ao aplicativo. Por outro lado, há quem defenda que o jogo é uma boa opção de entretenimento e que não oferece qualquer malefício aos demais, de modo que se insere numa esfera de liberdade individual de escolha de como passar o tempo e se divertir.

Eu não baixei no meu celular, porém, acompanhei essa polaridade nas discussões e assisti vídeos de dois jovens britânicos jogando, pois confesso que fiquei curiosa para entender como o aplicativo funcionava. E sabem o que eu percebi no vídeo?

Eu percebi dois jovens empolgados, rindo como se tivessem voltado à infância. Dois jovens que confessaram que raramente saíam de casa, mas que foram ao parque caçar pokemons e que acabaram reparando nas árvores e animais ao redor, que andaram por Londres, visitando pontos turísticos por causa do jogo. Eu vi esses dois jovens interagirem com dois menininhos que também jogavam, apesar da disparidade de idade. Dois menininhos que poderiam muito bem ter ficado em casa jogando videogame ou no computador, mas que aproveitaram o dia de sol e fizeram amizades por lá. Li o relato da mãe de um garoto autista que detalhava como o joguinho mudara o comportamento de seu filho e fizera com que ele socializasse com outras crianças, para espanto e alegria da progenitora.

Então, fiquei a pensar: o que exatamente incomoda as pessoas que não estão jogando? É por ser infantil? Se for por isso, me perdoem a veemência, mas quanta hipocrisia! Já cansei de ver adultos apertando os botões do elevador para a porta fechar mais rápido e outra pessoa não entrar. Já cansei de ver adultos tão empolgados quanto as crianças quando sai um novo filme do superherói favorito. Já cansei de ver adultos brigando por coisas estúpidas, com bem menos maturidade do que os próprios filhos.

É por fazer com que as pessoas que jogam não interajam mais? Bem, acho que até poderia ser um argumento válido se realmente alienasse por completo os jogadores, mas não é o que eu tenho visto acontecer. Eu tenho visto as pessoas se unirem e se divertirem por causa do jogo. Amigos marcando de se encontrar para jogarem juntos. Pessoas que estão sendo motivadas a saírem de suas casas e entrarem em contato com o mundo lá fora. E esse cenário não é muito melhor em comparação à uma pessoa “madura” que não joga Pokemon Go, mas que não presta atenção nos amigos ou na família porque está a todo tempo conferindo o e-mail ou o whatsapp? Não é muito melhor do que uma pessoa “madura” que não joga Pokemon Go, mas que ignora seu interlocutor, com os olhos fixos no instagram o tempo inteiro?

Meu único problema (o qual até já expus em texto anterior) com redes sociais, aplicativos e demais recursos tecnológicos é quando o uso excessivo, sob o pretexto de encurtamento de distâncias e entretenimento, acaba por afastar demais as pessoas umas das outras e da realidade. Via de regra, o que foge à moderação faz mal. Mas se usado com equilíbrio e ponderação, eu pergunto: qual é o mal nisso? Eu mesma amo os filtros do Snapchat e amo poder conversar com meus amigos sem ter que gastar por isso. Eu amo “me perder” num bom livro e às vezes até tenho que me policiar para não me afastar demais do mundo lá fora.

Que saibamos ser críticos, mas que também saibamos reconhecer os aspectos positivos nas novidades. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. A vida já demanda tanto da gente, um pouco de diversão cai bem. Se você não está prejudicando ou ferindo ninguém no processo, se você não está ferindo os sentimentos de outrem por não lhe dar a devida atenção… Então faça o que te faz feliz. Só Deus sabe o quanto eu gostaria de voltar a ser criança às vezes… Para satisfazer os detentores do complexo “Cult” que ainda se incomodam com o jogo, e nas palavras do poeta Casimiro de Abreu: “Oh! que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e tem dois livros publicados: seu primeiro romance, “Lítio”, pela Editora Giostri, à venda na Livraria Saraiva; e o e-book de poesias “Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais”, à venda na Amazon e no site da Livraria da Folha. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

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