Uninter – 1

Quantos graus aguentamos?

Por Victor Gabry

Tudo isso me perpassa a cabeça quando olho para esse cinzento céu por entre as janelas de vidro da parte nova do Plaza.

Tudo isso me perpassa a cabeça quando olho para esse cinzento céu por entre as janelas de vidro da parte nova do Plaza.

Mais ou menos durante o fim da tarde você pode olhar para o outro lado da Baia. Entrever uma fagulha de sol ou outra por meio das nuvens que se derramam sobre o Rio – e consequentemente sobre Niterói também. Afinal, tudo que acontece na capital tem um eco ou outro em volta. A instalação das UPP’s aumenta a criminalidade na região metropolitana, as manifestações ecoam nas roupas vestidas naqueles que sobem as barcas, as obras do Rio Maravilha engarrafam até a ponte. Por isso não é surpresa olhar para o horizonte e ver nuvens, e saber que há outras acima de sua cabeça.

Essas nuvens nublam o Sol, acabam com a praia, e desanimam ligeiramente o dia. Suscita, como sempre, o velho embate entre aqueles que preferem o frio e aqueles que preferem o calor, sem, entretanto, aliviar os demais estresses do dia a dia. Se um bueiro enche as poças molham as camadas e camadas de roupa; se faz Sol o que molha as mesmas camadas de roupa é o nosso suor. Se está calor, o cheiro de vários braços levantados no ônibus se faz sentir, independente de ar condicionado; se está frio, é mais um mendigo que sonha com uma coberta exposto ao tempo.

O calor é moroso, é receptivo, é inebriante, preenche as roupas e a alma e doura as faces e os pelos. Não é atoa que aquelas pessoas expansivas, de abraços amplos e riso vivaz são calorosas. Por outro lado, o frio é aconchegante, é discreto e acolhedor, e deixando de lado todas as metáforas com corações frios, lembre-se que basta uma corrente de ar gélido para fazermos um dos mais belos atos de amor: abraçarmos a nós mesmos.

Muitos são aqueles que sofrem no frio. Uma barriga vazia dói mais sem algo quente para enchê-la – uma noite de sono pode facilmente ser a última se somos embalados pelo frio vento que corta por entre prédios. O frio embora cobre que fiquemos juntos, também distingue ainda mais nossas diferenças, porquê que ato há de ser mais marcante para nos separar do que olharmos um irmão sentado à sarjeta e não nos compadecermos de seus calafrios?

Muitos são aqueles que sofrem no calor. Uma garganta seca é um incômodo, mas uma garganta sedenta é um fardo, ainda mais em nossa cidade, onde a água é fácil de se encontrar e difícil de se beber. Uma garganta sedenta é também terreno fértil para se criar a tentação, e ao mesmo preço a cachaça e a água, escolhem a cachaça os desesperados. A água posterga a sede – o álcool, a consciência.

Tudo isso me perpassa a cabeça quando olho para esse cinzento céu por entre as janelas de vidro da parte nova do Plaza. Alguns poucos raios de sol que, para quem como eu que se agasalha com presteza, são um detalhe artístico digno de um quadro pintado pela natureza, para outros representam uma noite menos penosa. Um belo dia de céu azul que pode significar um banho refrescante ou um mergulho na piscina pode ser o algoz da força de vontade de mais um miserável. E mesmo perpassando tudo isso em minha cabeça, bebericando um café, me percebo ainda estranhamente indiferente.

Não fomos criados para tirar o casaco, a não ser que ultrapasse (e isso fica a critério do leitor) os vinte e cinco graus.

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