21 Dias – Topo

Pula a fogueira de Curitiba

Por Victor Gabry

"essa filha, entretanto, já cresceu, saiu de casa, e toma as ruas e casas desse Brasil brasileiro do primeiro dia de janeiro até o trigésimo primeiro de dezembro"

“essa filha, entretanto, já cresceu, saiu de casa, e toma as ruas e casas desse Brasil brasileiro do primeiro dia de janeiro até o trigésimo primeiro de dezembro”

Há dois anos, a roda de capoeira, tradição que remonta os combates entre os ex-escravos de origem africana e seus senhores de origem europeia, foi consagrada como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Se juntou, enfim, a outras manifestações típicas do Brasil, como a arte Kusiwa ou o Frevo, representando um pouco mais das tradições nacionais. É, porém, mais uma pequena, ínfima tradição a ser exaltada no exterior e interior, frente a hábitos tão mais enredados no interior da nação, festas maiores, mais únicas, e definitivamente mais impactantes. Não falo aqui do Carnaval, esse gigante que embora tenha se desenvolvido de modo particular e único em solo brasileiro, pode pegar a árvore genealógica e traçar uma linha meio tortuosa até Veneza.

Não, falo aqui das festas de meio de ano que se derramam no ano inteiro, apoiadas em uma dança já renomada entre os brasileiros de alto escalão e, só recentemente, recebendo atenções globais pelo seu caráter único. Afinal, não é todo país que, tendo dois, talvez até três meses recebendo festas com seus respectivos nomes, dance suas danças o ano inteiro. As festas juninas, julinas, e até agostinas quando estamos com folego, são o berço ideológico da dança de quadrilha – essa filha, entretanto, já cresceu, saiu de casa, e toma as ruas e casas desse Brasil brasileiro do primeiro dia de janeiro até o trigésimo primeiro de dezembro.

Todos conhecem o “pula a fogueira”. Todo ano conseguem pular com relativa facilidade – as meninas com suas saias levantadas e os rapazes de cartola na mão. Claro, escapam algumas notinhas escondidas nas meias, outras debaixo das saias, e as fagulhas as devoram, ávidas por mais. Esse ano, porém, uma coluna de fumaça se levantou, lá pras bandas de Curitiba: era um foguinho mais ávido, procurava um pouco melhor as notas, e conseguia pegar um ou outro desavisado da quadrilha. Tinha lá seus preferidos, mas era, sem sombra de dúvidas, um fogo arredio.

Ah, mas o que era um foguinho para essa quadrilha? “Essa turminha da pesada não encontrará problemas em se esquivar das labaredas” seria a chamada da sessão da tarde para o filme – que por sinal o Padilha vai gravar. No Planalto Central se dança quadrilha vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e só se para quando de férias prolongadas para tirar um cochilo, relaxar os calos, e voltar para mais uma rodada de comidas típicas (do Palácio) e dançar quadrilha, e pular a fogueira. Tão experientes estão nesse jogo que faça chuva faça sol, nunca uma fogueira será maior que os saltos desses festivos.

A Unesco na hora de considerar seus patrimônios culturais da humanidade deve ter outros quesitos em mente. Não o histórico, porquê, nesse aspecto essa dança de quadrilha específica remonta os primeiros dias de colonização; nem tampouco a duração ou grandiosidade do evento, pois só o brasileiro conhece realmente como é caro custear essa festa – o fazemos, é claro, pelo bem da tradição; e arrisco-me a dizer que não visam muito o social, porquê, convenhamos, tem manifestação cultural brasileira que mais afete o social? Vou supor que seja por estilística, estética, exoticismo ou então apelo a pessoas mais inteligentes que eu para darem-me uma explicação.

Por enquanto só me resta saber que é patrimônio cultural do brasileiro mesmo essa dança de quadrilha diária no Planalto Central.

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