Hinode – 1

Segunda-feira comum, ou crônica de segunda

Por Victor Gabry

Eu admito que criaria um personagem – não passei exatamente pela situação – que caminharia até um ponto de ônibus e se revoltaria com Deus e o mundo por sua participação no impeachment.

Foto: Cynthia Viana

Estive procrastinando essa crônica. Ainda vou bater um bom papo com o editor e ver quanto ele sofre – talvez assim eu me apiede um pouco. Mas é inevitável, está intrínseco ao fazer crônico: temos que dar um tempo para que as ideias amadureçam. Crônicas que falam desse fazer já bastam, e por isso, farei um não sobre esse fazer generalizado. Mas sobre a história dessa crônica.

Meus prazos são bem flexíveis. E como todo escritor recente tenho que me vender às marés do momento. Não poderia ser diferente, afinal são crônicas, um reflexo do nosso dia a dia. Ia valer alguma coisa, em pleno contexto de crise política, fazer uma crônica sobre me entocar em um quarto de hotel e socar a cabeça no teclado até sair algo? Não. O povo quer ler o que o povo quer ler. E eu finalmente entendi o que o povo quer ler.

Minha ideia original não era de escrever assim, tão íntimo de todos. Eu admito que criaria um personagem – não passei exatamente pela situação – que caminharia até um ponto de ônibus e se revoltaria com Deus e o mundo por sua participação no impeachment. Até Deus, coitado, que não tem nada a ver com o superfaturamento de uma arca ou outra. E não estou aqui defendendo lados: tenho uma opinião que de tão sólida não sai da minha cabeça. O que estou dizendo é que esse personagem se enfureceria com as pessoas no ponto, pensando que elas, os outros, elegeram os deputados vergonhosos que temos, seja pra qual lado você mije.

Então ele perceberia, em seu furor de pessoa de segunda-feira: Ei, eu estou aqui também. No mesmo ponto. Também estou sentindo essa crise. Econômica, política, de confiança… De súbito meu personagem gritaria a todos que não estão sozinhos – ele também é mais um em meio a uma segunda-feira. Segunda-feira essa que era comum.

Mas, como bem sabem, as coisas não acontecem como queremos. Ao invés disso me deixei levar no tempo, aproveitei o feriado de Tiradentes (outro coitado que não é culpado da ociosidade brasileira), e só no domingo me bateu um estalo. Foi em um churrasco, família reunida, e aquele avô, com um abraço que abarca meio mundo e com o hábito de molhar o dedo para mover a tela do celular – como quem vira a página de um livro – que me deu a dica. Tudo o que ele disse foi que em meu texto eu deveria unir as pessoas: apresentar algo, ou solicitar, que todos se unissem em uma causa.

Em um primeiro momento ri internamente da ingenuidade. Ingenuidade a minha, pensei depois. Porquê, afinal, o trabalho de quem escreve não jaz em ficar se lamentando, pelos cantos pensando na eterna tristeza de sua solidão. “A maior solidão é do ser que não ama”. Eu vou discordar de você Vinicius, embora eu duvide que consiga escrever tão belamente: a maior solidão é a do ser que sente pena de si mesmo, que se envaidece de se sentir só, como se pensasse sozinho e fosse a última Coca-cola do deserto. É também a mais feia das solidões, pois de todos em sua vida, é o solitário quem mais se compadece da própria dor. Auto imposta e auto sustentável – uma vergonha.

Esse é o estalo. Era isso que tinha de errado no meu texto inicial – e foi essa reflexão que me fez escrever essa crônica. Esse meu personagem, que perceberia em silêncio que o brasileiro de verdade não é aquele que está no Congresso, mas sim na segunda de manhã pegando o ônibus, era falho. Era só um solitário que gostava da solidão e das inspirações momentâneas. Era só mais uma Coca-cola metida em um mercadinho de esquina. E esse não é o brasileiro. Não é isso que uniria as pessoas, como sugeriu meu avô.

Percebi outra coisa com essa brincadeira toda. O papel do escritor de crônica não é só devanear. É trazer algo de verdade – o tipo de verdade que espiamos no cotidiano. Seja em um revoltado no ponto de ônibus, seja em uma dica de um avô.

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