Uninter – 1

Diagnóstico do Brasil

Por Bruna Tschaffon

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O paciente entrou em meu consultório e sua aparência não era animadora.

De relance, já pude notar uma expressão perdida e catatônica em seus olhos. Como quem parecia ler meus pensamentos, respondeu-me que sua visão nunca foi lá grandes coisas, mas com o passar dos anos se deteriorava numa velocidade assombrosa. Era incapaz de enxergar em detalhes os agentes tóxicos ao seu redor.

Assim, era acometido por graves enfermidades que se infestavam pelo organismo abatido.

O mais persistente era um vírus altamente potente e de rápida multiplicação, nomeado em latim para designar o mal da corrupção. Já tive muitos pacientes que foram vítimas, mas devo confessar que nunca vi caso tão alarmante. Não havia sequer um órgão no meu pobre paciente que poderia afirmar certamente livre da corrupção. Ah, que criaturinha desprezível e infecciosa!

Passei a examinar seus reflexos. Usei o martelinho e… Oh, nada! A perna direita parecia brigar com a perna esquerda e o resultado era, ou uma letargia desolada, ou uma convulsão esquizofrênica.

Podem imaginar a minha preocupação com o estado clínico do paciente àquela altura. Com o estetoscópio, tentei escutar os pulmões. Pensei, assustada, que a água nele se infiltrara. Pior: era lama. A gestão hídrica não era a das melhores e a contaminação impedia o correto funcionamento da captura e envio do vital oxigênio para o corpo inteiro.

Não tive escolha. Pedi radiografia, ressonância, hemograma completo, todos os exames que poderia imaginar. Um caso sem precedentes na minha carreira médica. Nada me preparou para o que viera a seguir.

Falência múltipla dos órgãos. Deficiência vitamínica. Infecção generalizada.

Brasil me fitou, com um semblante sério e consternado.

“É grave, Doutora?”.

“Muito”, repliquei, em tom de alerta, “Receio que seja necessário e urgente um tratamento intensivo.”.

Ele me deu um sorriso resignado.

“Não posso ser internado, Doutora. Tenho visita lá em casa. Olimpíada. Ela só costuma dar o da graça de quatro em quatro anos, entende? E um bom anfitrião tem que manter tudo em ordem e esconder a bagunça.”.

Tentei impedir sua saída. Tarde demais.

Até hoje não sei o que houve com Brasil. Espero que tenha se recuperado. Como mulher da ciência, a única constatação que posso fazer, por mais paradoxal que pareça, é que seria preciso um milagre. E depressa.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado pela Editora Giostri. Lançou o e-book de poesias “Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais”, à venda na Amazon e na Livraria da Folha. Seu romance “Lítio” será lançado dia 29 de abril, às 19 horas, na Saraiva do Plaza Shopping Niterói. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

 

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