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A síndrome das paixonites efêmeras

Por Bruna Tschaffon

 

Foto: Pixabay

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Como ainda não criaram nenhum tipo de grupo anônimo para curar minhas peculiaridades, passo às confissões sem mais delongas.

Sofro do que escolhi chamar de “síndrome das paixonites efêmeras”. É só um nome sofisticadinho e pretensioso para deixar claro que eu me apaixono e desapaixono rapidamente por intelectos alheios. E meus alvos de afeição nem são quem você imaginaria. Não são pessoas reais, tangíveis, alcançáveis.

Mas são homens imaginários? Você por acaso é louca?

Não, caro(a) leitor (a). Não tenho essas paixonites efêmeras em relação às pessoas com as quais se convive, se encontra casualmente ao longo da semana e se conversa com regularidade. As que lhe cumprimentam por cortesia e com as quais se esbarra em corredores. Não.

A verdade é que  eu gosto por acaso e me desfaço do sentimento em minutos. É o desconhecido que lê um Hemingway ou Salinger na cafeteria, é o rapaz vestindo uma camisa engraçada, o autor que usa as palavras de modo fascinante (e, céus, eu já tive paixonites por tantos escritores!), o moço que acabou de pedir a minha sobremesa favorita sem saber.

Apaixonei-me porque ele usou o tom de voz agradável porém convicto, por ter citado a frase de um filme que eu amo, pois franze as sobrancelhas de um jeito engraçado. Provavelmente tive uma dessas paixonites efêmeras pelo garoto que numa segunda-feira nublada escutou uma música do The Smiths (ah, que clichê! Ok, The Cure, minha banda predileta) no ônibus com o volume no máximo.

Isso não significa que eu quisesse cruzar a fronteira do platônico. De forma alguma. A realidade tem o poder absurdo de arruinar paixonites, as quais já são fadadas à curta duração por natureza.

Eu os decifrei dotada de voracidade, numa pequena fração temporal lhes dediquei contemplação submissa e genuína devoção. Quis contar-lhes todos meus segredos e desvendar suas ânsias. Perguntar sobre suas ideologias, crenças, medos e dúvidas. Foram paixões etéreas, voláteis, semelhantes ao vendaval repentino logo desfeito. Feito versos instintivamente concebidos porém substituídos por novos poemas ou significados alternativos.

Não duvidem: eu dialoguei e me encantei pela projeção, pela mera ideia do outro.

Meus afetos passageiros num carro desenfreado se vão, mudam as faces e trejeitos; inconscientes da tênue relação rompida pela força que o mundo real impõe, às vezes pelo despertar de devaneios… Cada romance numa página, devidamente virada contudo sempre escrita à lápis. Apago-os, satisfeita.

Um dia talvez eu encontre um cara cuja alma me seja tão fascinante que eu queira mergulhar nela e nunca mais me divertir com minhas suposições criativas, com minha necessidade de me entreter com conexões amenas. E quem sabe ele me ensine que o amor vale muito mais a pena do que essas paixonites efêmeras por ser forte o suficiente para sobreviver ao que é real.

Até que chegue tal dia, é como diria o escritor Kerouac: “Não é que eu não consiga me apaixonar. É que eu não consigo evitar e me apaixono por coisas demais de uma vez. Então, você precisa entender por que eu não consigo distinguir entre o que é platônico e o que não é, pois é tudo demais e de menos ao mesmo tempo.”

Por sinal, assim que eu li tal citação, tive uma paixonite efêmera por ele. Ele me entendeu quando redigiu isso.

Ó, céus. Lá vou eu de novo.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado pela Editora Giostri. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

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