Hinode – 1

Do quanto vale a sua alma (não temam o Ceifador)

Por Bruna Tschaffon

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O Ceifeiro passou pela aldeia numa inesperada manhã nublada de quarta-feira. Os aldeões sempre ouviram histórias de que o famigerado dia chegaria; porém, não estavam exatamente preparados para o ocorrido. Não tiveram alternativa. Deixaram suas casas, amedrontados, rumo ao desconhecido.

Alguns choraram, outros permaneciam em estado de negação. Havia os que estivessem apenas curiosos. Contudo, uma pergunta não deixava de se impor nos pensamentos de cada integrante daquela coletividade.

“Como pesarão as nossas almas no Dia da Medição?”, interpelou uma garotinha, mais atrevida do que seus superiores em idade. Os pais a repreenderam com sussurros ríspidos, escandalizados com tal proceder. Tinham medo do que o Ceifeiro replicaria.

Ele se virou para a menina com uma expressão estóica. Os humanos só costumavam fazer as perguntas essenciais quando já era em demasiado tarde. Que lástima.

Porém, seu trabalho não era fornecer a resposta, mas meramente conduzi-los estrada afora até que se deparassem as soluções no horizonte. Não podia, entretanto, ocultar o interesse a respeito do que aquelas mentes cogitavam.

“Como vocês sugerem que sejam medidas?”.

O tecelão se ergueu, de súbito.

“Pelas vestes que usávamos, por óbvio. A veste indica a posição social do homem na aldeia, é seu modo de demonstrar seu valor. O aldeão que traja linho fino certamente é mais digno do que os demais”.

“Pois vos digo que nenhuma das almas que ceifei foi medida de tal acordo. Um aldeão em traje de linho não tem qualquer garantia de valer mais do que o farrapilho”.

O tecelão não foi capaz de ocultar seu desapontamento. O mercador, por sua vez, foi motivado pela negativa. Ele tinha uma ideia mais propícia.

“As almas devem ser medidas pelas moedas que juntamos. É o ouro, e não o linho, que revela a proeminência do indivíduo em relação aos demais. O mais astuto é capaz de lucrar muito mais do que o tolo”.

Os pobres da aldeia se assustaram com a sugestão. Não queriam aquele critério, pois nada valeriam.

“Pois vos digo que nenhuma das almas que ceifei foi assim avaliada”, retorquiu o Ceifeiro, “As moedas por aqui ficam e não há alma que as possa levar consigo para a Balança”.

Os burburinhos de perplexidade se espalhavam a cada negativa. Qual então seria o valor? Quem resolveria tal mistério? O chefe da aldeia logo se impôs.

“Não digam tolices. O valor de uma alma depende de sua capacidade para inspirar reverência no coração dos homens. A alma de um líder certamente mais vale do que a de seus seguidores, pois é dotada do magnetismo atraente às demais. Quanto mais aceita pelo povo, mais valiosa é a alma”.

“Pois vos digo que nenhuma das almas que ceifei foi assim sopesada.”.

O  ancião considerou todo o diálogo travado até então extremamente incoerente.

“O que deve ser considerado é o conhecimento adquirido pela alma através de seu raciocíonio e de suas experiências sensoriais. Como poderia um ignorante valer mais do que o homem vivido e de intelecto apurado? Absurdo!”.

A menina que dera início ao debate mal conteve seu grito de terror.

“Mas, mãe, eu ainda não aprendi muito!”, puxou as vestes da progenitora e se escondeu atrás dela.

“Pois vos digo que nenhuma das almas que ceifei foi de tal forma romaneada.”, disse o Ceifeiro, a acalmá-la. Ficara entretido com as suposições expostas.

O sábio estivera calado desde o princípio da confusão. Refutara cada um dos argumentos trazidos à tona, ainda que apenas nos recantos de sua mente. Após ouvir, pronto estava para emitir sua opinião.

“Proponho que as almas sejam medidas de acordo com a inclinação que demonstraram ao amor, à gentileza e à caridade.  Avaliadas sejam conforme o que há de mais puro na humanidade, independentemente de seus trajes, posses, status e conhecimento. Sejam aferidas pela luz que cada alma deve emanar em seu estado de benevolência e pureza.”.

O sábio se calou. O Ceifeiro se calou. Os aldeões se calaram. A menina se calou. Até mesmo o vento se calou.

“Assim seja”, disse a Voz.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado pela Editora Giostri. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

 

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