Cinemark – 2

Menos filtros e mais sabor, por favor

Por Bruna Tschaffon

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Na sexta-feira de manhã, minha aula acabou mais cedo e eu consegui voltar pra Niterói na barca nova. Estava praticamente vazia. Sentei-me perto da janela e fiquei a observar a paisagem ao longo do trajeto.

Olhei para a ponte e pensei em como o ser humano consegue construir estruturas fantásticas. Olhei para o céu azul e ponderei que a natureza é capaz de ser linda em sua simplicidade. Olhei para o mar (sejamos honestos, poluidíssimo), mas notei que a incidência do sol nas ondas fazia com que pequenos pontos brilhantes enchessem o meu campo de visão, numa dança harmônica; refleti sobre a  beleza existente mesmo no que é tido como feio. Olhei para tudo isso, devorando o mundo com meus olhos curiosos e ansiosos por inspiração.

As pessoas ao meu redor, contudo, olhavam de forma diferente. Olhavam através das câmeras de seus celulares, tirando fotografias. Provavelmente acrescentando efeitos ao que, para mim, era um cenário naturalmente digno de admiração. Fiquei a imaginar qual filtro do instagram usariam. Valencia? Amaro? Mayfair? Ou, o mais fatídico: Toaster?

Sou fã de fotografias, mas elas viraram uma espécie de compulsão hoje em dia, não? Sempre que vou a restaurantes, a pessoa da mesa ao lado que pediu uma sobremesa tenta discretamente fotografar o prato antes de comer. A maioria de nós já fez isso um dia, convenhamos. Sou culpada sim e não venha me dizer que você não é ou ao menos não conhece alguém que o seja.

Comportamo-nos assim por sentirmos a necessidade de compartilharmos as nossas experiências. Registrá-las para que os demais desfrutem delas conosco. Não acho que haja um mal temível na prática. É natural do ser humano querer dividir suas vivências.

O complicado é identificar quando perdermos as estribeiras. Eu sinto como se, atualmente, estivéssemos a viver sob a ditadura da superexposição. Parece que os acontecimentos em nossas vidas só são desfrutados quando os compartilhamos, embelezados, alterados, para que os outros vejam. Os relacionamentos são “oficializados” nas redes sociais. O lanche não é lanche sem parar no snapchat.

Não queremos uma vida sem retoques, na obscuridade da privacidade. Queremos mostrar ao mundo que nossa torta de chocolate com filtro Walden e uma ligeira ampliação na luminosidade da imagem era realmente muito bonita, ainda que não tão saborosa quanto imaginávamos.

Queremos ver a formatura de nossos filhos através dos pixels do Iphone, reclamando da moça na fileira da frente cujo cabeção atrapalhou a captura do momento. Queremos todos ser lindos e perfeitos e apavorantemente não humanos, ainda que apenas na superfície. Queremos a beleza que não mais conseguimos enxergar no cotidiano, pois nossos olhos estão desacostumados com o real e treinados para idolatrar o inalcançável.

A cruel verdade é que a vida às vezes só precisa que você coma suas batatas fritas sem fotografá-las e se concentre no que a pessoa na sua frente está falando. A vida exige que você de vez em quando olhe pela janela e permita que seu coração sinta e se acelere na própria companhia. Que você saiba que a existência não é uma vitrine e que, no fundo, estamos apaixonados demais pelo nosso estoque de idealizações para apreciar o que nos cerca com a devida intensidade.

A vida não precisa de tantos filtros assim. Precisa de equilíbrio. Moderação. E um pouquinho de Nashville, pour voir la vie en rose aqui e acolá, porque ninguém é de ferro.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado pela Editora Giostri. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

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