Alecs – 1

Relatos de uma típica míope

Por Bruna Tschaffon

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Tenho algumas ambições descabidas, um par de All Stars já surrados e três graus de miopia.

Em certa ocasião, por estar muito atrasada, acabei saindo de casa sem minhas lentes de contato. Foi uma sensação incômoda e estranha. Só conseguia enxergar borrões amorfos que se assemelhavam a qualquer coisa vagamente familiar. As pessoas eram fotografias desfocadas e envelhecidas pela ação do tempo.

Não pude visualizar os nomes das ruas nas placas, muito menos os anúncios em outdoors. Fiquei presa num estado de nervosismo crescente, mal esperando a hora em que regressasse e colocasse o meu “segundo par de olhos”. Que aflição se tornou meu dia até conseguir ver plenamente outra vez.

A descrição inicial parece desinteressante, mas ultimamente tenho pensado- sim, possuo esse péssimo hábito- no quanto todos nós sofremos de miopia. Não afirmo isso no aspecto meramente biológico, até porque quem escreve normalmente se desenrola em metáforas e conotações.

Creio que há alguns eventos na vida durante os quais- proposital ou impensadamente- largamos os nossos óculos de compreensão da realidade e andamos na grande cidade sem que a visualizemos por completo.

Fazemos isso porque existem pequenas verdades que nos perseguem e incomodam. Aquela admissão temida porque sabemos o quanto suas repercussões são dolorosas ou a negação de um fato que preferimos revestir de ilusões para evitar o sofrimento. Existem constatações as quais sabemos serem inevitáveis, mas fugimos delas numa obstinação desesperada.

Mentimos uns para os outros, mentimos para nós mesmos, evitamos a nitidez do verdadeiro com a ânsia de um mundo mais embaçado, porém confortável a partir do momento em que nos habituamos ao desfoque.

Tudo por medo. Medo de assumir o que é certo, medo da perda do controle, medo de decepcionarmos, medo das falhas, medo dos defeitos, medo da mudança, medo da própria vida. Ah, é tão lamentável temê-la! Entrar em coma voluntário enquanto o futuro do pretérito vem cumprimentar nosso leito. O problema é que a vida não é para os amedrontados. Nunca foi.

Ver em sua plenitude é um processo traumático, mas também o são a cegueira momentânea e os enganos de quem passa a vida correndo da brutalidade da clareza óptica.

Talvez deva alterar o início da reflexão:

Tenho algumas ambições descabidas, um par de All Stars já surrados e sou tão míope quanto qualquer ser humano falho e com algumas mentiras nas costas.

 

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado ainda em 2015 pela Editora Giostri. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

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