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As Naturais Considerações sobre a Poesia

Por André Scucato

Assim define o poeta a diferença entre poema e poesia.

O poema é o sussurro agitar das sombras, incitadas entre as ramificações dos galhos pelo sopro do movimento, sem corpo, espalhado pelo ar. É a sedimentação do solo, antes de depositada a poeira do tempo. É o contorno das esferas refletidas no interior da lágrima do orvalho em repouso suspenso da pétala. O instante do encontro em que o impacto de um grão de água extinta a sua narrativa, na dança de partículas.

Não é a sensação da sede que virá por entre as fendas rasgadas da terra, nem ao menos o sofrimento do sentir que avança compondo futuros diversos imaginários. Não o diálogo que colhe palavras em esquinas de feiras que sorrateira esgueira como de um buraco a topeira que parece surgir de alguma solidão de espaço. Não é a constelação de girassol que acompanha Apolo em sua jornada diária, após o prenúncio da Aurora, nem a espuma do mar de amores. Nem a felicidade de um andarilho que fostes, a seguir seu destino pela humildade do acaso. Pois todos os detalhos poderiam amorfar-se em ruflar de pares e asas. Comove-se com o retalhes que se embalam na simplicidade da vista. Alegra-se com o sorriso desprendido de uma forma ingênua. Todas estas considerações não são poemas, é poesia.

Os poemas são a essência, não pelo que forma, nem por sua forma, mas como matéria bruta que sedimenta o que será criatura. A poesia é o despertar autômata, provida de ânima, de energia, de possibilidades que podem espatifar de acordo com a direção do vento, do acorde de um pensamento, de uma cor agem a que se fia, um sabor do qual se alimenta do passado uma fatia, ou até mesmo um galho que agita a sombra adormecida ao solo. Os poemas são esses fios aparentemente invisíveis que são observados entre o pousar da ave em um galho e o movimento das sombras no chão. Os poemas se encontram na terra, bem como a poesia é encontrada nos ares. Quando a poesia se movimenta, modifica-se a forma do poema.

Quanto aos sentidos, seguem os poemas em linhas, ao pares, a poesia aos seus destinos, triangulares. Ao traçares do poema a linha já sabes por onde caminha, e a poesia, pois é, ia, mas seguiu uma direção ao ter o tímpano encantado pelo timbre que alado alterou a silhueta do sentido quando o som alirou o ouvido.

O poema tem o gosto de repetição enquanto a poesia tece figurinos diversos e atuações distintas para mesma palavra que habita e escreve histórias para diversos personagens. Os poemas; narração, poesia; narrativa.
A sutil diferença entre poema e poesia não se identifica com a distinta semelhança entra amor e paixão, pois ambas são delegadas à categoria dos sentimentos. Aproximam-se, mas não se exatam com a falta de semelhança entre o tato e o olfato. Nem a tradição dos matemáticos que creem em princípios já provados anteriormente em contradição aos filósofos ao reunir todas as linhas traçadas para arquitetar a origem dos conceitos e a sua forma de pensar, repensando-as. Nem equivale à ferocidade do abismo no qual existem o fogo e a água, pois apesar de constituírem-se em elementos primordiais, caminham pela total antítese na matéria de sua formação e destino. A sutil diferença, entre poema e poesia, equivale-se na diferença entre o sabre e o sino. Ambos são formados do mesmo elemento, no entanto servem a propósitos distintos.

A semelhança sincera é o espaço de atuação, utilizadas na simetria coreográfica de dançarinos sobre o tablado. Dividem a mesma margem da inexistência que o poeta avista ao questionar a branca face do espelho que antecede o encontro que entalha a face do pensamento, quando o lápis desnuda a página, cobrindo a ingenuidade nua do abstrato com formas. São esculpidas no mesmo instante do beijo de um cinzel na superfície de um mámore; mas podem ter uma a forma do pensamento e a outra de elefante.

Sobre a tatilidade outra consequência. Uma escorre entre os dedos quando segura, a outra escultura a sua presença. Quanto ao movimento, uma coreografia, a outra do mover se isenta. Quanto ao julgamento, uma é sentença, a outra setencia. Quanto a estrutura, uma obriga a forma, a outra a forma abriga. Assim define o poeta a diferença entre poema e poesia.

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