Cinemark – 2

O Estado Islâmico

Por Sebastião Neves

Foto: Reprodução / Internet

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Em todo o mundo, a maioria das pessoas não está conseguindo entender o que é esse fenômeno. Nem onde se localiza precisamente. Invade nossos lares de maneira brutal, com a transmissão pela TV de execuções horripilantes. Parece ser recente, mas não é. A impressão geral dos muçulmanos, que já era negativa por causa do radicalismo e da intransigência da Al Qaeda e de outros grupos extremistas, tornou-se pior.

Para começar, não se trata de um Estado, pois não tem seus elementos constitutivos. Atua em um território que não é seu, mas sim numa “terra de ninguém”, no leste da Síria e no oeste do  Iraque, que não conseguem exercer plena autoridade sobre toda a extensão de suas áreas, pois vivem numa guerra civil dilacerante e interminável. Não se trata de um Estado, igualmente, porque não é reconhecido como tal por qualquer país do globo terrestre.

Então, o que é? Trata-se de uma organização terrorista extremamente violenta, muito bem organizada, muito bem equipada militarmente, que passou a ocupar com eficiência um vácuo de poder em áreas que a Síria e o Iraque, devido à guerra civil de vários anos em seus territórios, não conseguem controlar. Existem muitas dúvidas sobre os desdobramentos do conflito naqueles dois países. Mas uma coisa é certa: ambos caminham em direção da fragmentação política de seus territórios. Seja qual for a conclusão, que parece distante, da guerra civil, nem a Síria, nem o Iraque voltarão a ser o que eram.

O objetivo principal do Estado Islâmico (conhecido também pela sigla D.I. “Daulah Islamiya”, em árabe) é constituir um estado com autoridade política e religiosa sobre as áreas em que já se instalou, e igualmente sobre todos os muçulmanos do Oriente Médio, isto é, sobre a Arábia Saudita e demais reinos da Península Arábica, sobre o Líbano e a Síria, sobre a Jordânia e sobre a Turquia. Um vasto império, calcado no que havia sido criado pelo profeta Maomé, nos primórdios do surgimento e expansão do Islã. Por esse motivo, seu líder principal, Al Baghdadi, se autoproclamou “califa”, e chamou de “califado” as áreas onde exerce domínio, pois ele enfeixa em suas mãos poderes políticos, militares e religiosos, como os primeiros califas que sucederam a Maomé.

Al Babhdadi se transformou no principal inimigo do mundo ocidental, depois da morte de Bin Laden. Está conseguindo muito mais do que o antigo líder da Al Qaeda, com a ajuda de muitos integrantes do antigo governo de Saddam Hussein, derrubado após a invasão do Iraque pelas tropas dos EUA. Com a assistência também de outros especialistas e conselheiros procedentes de vários lugares do Oriente Médio. Não se sabe, ao certo, quantos milhares de muçulmanos se concentram nas áreas dominadas por El Baghdadi. O fato é que está alcançando, visivelmente, um mínimo de organização governamental. Nos seus domínios, devido a forças policiais bem constituídas, não há roubos, nem assaltos, nem sequestros, nem estupros. Já existem escolas funcionando de maneira organizada. Cédulas de identidade e passaportes do Estado Islâmico já estão sendo emitidos. Todos vivem sob o sistema jurídico com base na Sháriah, código islâmico de leis extraído do Corão, a bíblia dos muçulmanos. Está conseguindo a adesão de dezenas de milhares de jovens muçulmanos de todo o mundo, especialmente dos países da Europa, que não conseguem ter as mesmas oportunidades de estudo e de emprego que os filhos de não-muçulmanos. Muitos grupos de jihadistas (da palavra “jihad”, luta armada contra os infiéis, os não-muçulmanos) de 18 países lhe juraram permanente fidelidade.

Formou-se uma coligação internacional contra Al Baghdadi e contra o Estado Islâmico, integrada por 54 países sob a liderança dos EUA. A luta mais constante desse enorme grupo de nações se traduz por bombardeios sobre “áreas estratégicas militares” dos terroristas. Depois de 5.000 ataques aéreos sobre posições do E.I., a coligação concluiu que poucos estragos foram efetivos contra os extremistas islâmicos. Realizaram, então, um congresso internacional para debater a questão, com representantes dos 54 países. Um dos especialistas, em vista dos magros resultados obtidos com os bombardeios, uma vez que os jihadistas têm imenso conhecimento do terreno, onde instalaram sistemas de pré-aviso das operações aéreas e construíram extensos refúgios subterrâneos, sugeriu a utilização de tropas terrestres para desmantelar a organização do Estado Islâmico. Essa proposta foi muito bem acolhida. Com um grave “senão”. Qual o país, ou quais os países que forneceriam essas forças terrestres para combaterem um inimigo bem armado, bem treinado, e senhor do terreno?

O Estado Islâmico é muito mais violento e brutal do que a Al Qaeda, do que o Hamas na Faixa de Gaza, do que o Hizbullah, no Líbano, ou do que outras organizações extremistas espalhadas pelo Oriente Médio, Ásia e Europa. Se a própria Al Qaeda se desligou do grupo por causa de sua brutalidade, ou por sua “intratabilidade”, conforme o termo que foi usado, por que outras instituições ou até mesmo países como o Brasil preconizariam o diálogo com o Estado Islâmico? Não seria um tanto insensato e contraditório?

Essa organização terrorista é uma excrescência, mas parece que veio para ficar. Não será fácil a sua extinção, seja porque já está se organizando como governo, seja porque dispõe de extensos recursos de petróleo e de gás nas áreas que domina, seja pela provável fragmentação política e geográfica da Síria e do Iraque, seja porque nenhum país gostaria de passar pelo vexame de uma invasão e de derrota, como aconteceu com os EUA no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão.

Diplomata Sebastião Neves

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