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Amélia e a feia verdade sobre a indústria da beleza

Por Bruna Tschaffon

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Amélia teve uma infância feliz, mas algumas coisas lhe escapavam a compreensão. Brincava com suas bonecas, sem entender o porquê de seus corpos tão diferentes das adultas que conhecia. Amava as princesas, com seus cabelos perfeitos, tão mais arrumados e mágicos do que o seu.

Sua mãe era a mulher mais linda do mundo, com seus olhos brilhantes, sorriso convidativo, pele quentinha e o abraço mais confortável de todos. Contudo, vira e mexe  a mãe se olhava no espelho, emitia um suspiro de frustração e reclamava por estar gorda. A filha não entendia.

Então a pequena Amélia foi forçada a crescer e começou a entender.

Logo na adolescência, as revistas e os comerciais mostraram o que era considerado beleza. Mulheres com a pele impecável, maquiadas para cobrir quaisquer imperfeições. Magras, obviamente. Longas pernas. Mas não bastava ser magra se não tivesse peito ou bunda. Aí não adiantava.

Ela não foi informada de que nem as modelos nos editoriais se pareciam com as modelos nos editoriais. Não viu como as fotografias foram retocadas, como os filtros foram aplicados, como aquela mulher etérea e inalcançável era tudo, menos humana.

Não. Amélia apenas foi condicionada a querer ser como elas, pois estavam sempre sorridentes. Apareciam na televisão. Tinham as melhores roupas e recebiam muita atenção. Associou o intocável padrão com felicidade e realização.

Na escola, foi instruída a competir com outras meninas pela atenção dos garotos. Passaram a ser as inimigas, as recalcadas, as invejosas. Os meninos faziam listas das mais belas. Davam notas. Referiam-se até linguisticamente a elas como objetos: “já peguei”.

Até eles aprenderam isso com a mídia. As propagandas de cerveja usavam as mesmas palavras para descrever a mulher e a bebida. Gostosa, saborosa. Mulheres sempre tratadas como produtos, objetos, com as características externas de pronto avaliadas.

Os artigos que Amélia lia mostravam que seu propósito era agradar o homem, o consumidor. “Como satisfazer seu homem na cama”, “As roupas que os homens preferem em você”, “Como chamar a atenção dele na balada”, “Como conquistá-lo em uma semana”.

As meninas tiveram autoestimas tão continuamente destruídas que passaram a se comparar umas às outras. Passaram a sentir a constante necessidade de reafirmação. Foram treinadas para adquirirem o que não precisam e nunca chegarem a um ponto de aceitação do reflexo no espelho.

Amélia se viu triste. Não era bonita o suficiente. As revistas diziam que seus ombros eram largos demais, suas coxas, muito grossas, o nariz, muito grande… Ao invés de se divertir comprando roupas que a agradassem ou maquiagens para expressar sua criatividade, Amélia comprava tudo para se mostrar apresentável para a sociedade. Seu rosto descoberto era terrivelmente real em tempos de perfeição simulada.

As revistas não colocaram anorexia, bulimia ou automutilação na capa. Não exibiram as consequências, apenas estamparam as causas. Conscientização não vende. O problema era de Amélia, não do departamento editorial…

Amélia enfim arrumou um namorado. Ele a convidou para ir ao cinema. Foi buscá-la em casa e esperou até que estivesse pronta para sair. Brincou com o pai dela: “Não entendo por que as mulheres demoram tanto pra se arrumar!”.

Eles, de fato, não entendiam. Sabiam sobre a pressão para terem músculos ou como os homens não deveriam chorar, mas não conheciam os bastidores dos rituais femininos. As piadas culpavam os hormônios, uma insegurança do gênero, mas a verdade é que Amélia foi vítima da horrorosa e decadente indústria da beleza. Ainda achava bonito não ter o que comer, pois emagreceria; contudo, aprendeu a ser vaidosa para ser aceita.

Quando seu pai entrava no quarto e dizia que ela não precisa se arrumar, por já ser linda, ela se limitava a um sorriso conformado. Era tarde demais. Ouvira mentiras por tanto tempo que a verdade parecia uma farsa motivada por obrigação parental.

Em uma geração na qual novas Amélias são formadas, que saibamos instruir as nossas meninas a enxergarem com os próprios olhos, a compreenderem que a beleza mais importante não é a óbvia. Esta beleza óbvia é pervertida e não é sinônimo de alegria. É uma ilusão lucrativa e escravista que moldou mulheres quebrantadas, convictas de que suas aparências as definem.

Que possamos instigar suas mentes com leituras, conscientização, aceitação. Que elas mostrem ao mundo como são lindas do jeito que são, com tenacidade, com caráter e com valores fortificados.

Que saibamos lutar e desmistificar a indústria da beleza antes que fragilize os espíritos de filhas, amigas, irmãs, namoradas, mães, primas, tias… E assim, quando forem elogiadas, talvez realmente acreditem.

(Bruna Tschaffon é escritora da Coluna “Prosa pro Café” e seu primeiro romance, “Lítio”, será lançado ainda em 2015 pela Editora Giostri. Acompanhe seus escritos aqui na Folha RJ, no instagram @fazendoprosaepoesia e no facebook (www.facebook.com/brunatschaffonescritora).

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