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A Marcha Fúnebre da Educação

Por Professor Barragan

Foto: Reprodução Internet

Foto: Reprodução/Internet

A estreia de nossa coluna sobre educação não poderia se basear em outro assunto que não fosse a atual conjuntura do sistema educacional brasileiro. No contexto do Brasil, em 2015, notamos que a nossa educação continua caminhando em marcha fúnebre. Apenas para esclarecer aos nossos mais atentos leitores, a marcha fúnebre é uma procissão de funeral utilizada nos cotejos fúnebres, acompanhada de melodia, em que uma das mais famosas é o terceiro movimento da sonata nº 2 para piano, em Si bemol menor, op. 35, de Frédéric François Chopin. Durante a realização de uma marcha fúnebre, identificamos a existência de pessoas caminhando com o pesar de uma perda, perdidas em olhares desprovidos de esperança e em um quase estado de anestesia geral. Aliado a isso, ainda há, na musicalidade que acompanha os passos, um clima sombrio de impotência, como se ninguém pudesse (ou quisesse) reverter aquela situação.

Pois bem, eis a educação brasileira em 2015! Caminhamos em marcha fúnebre para o sepultamento de nossa educação. Começamos pelo ultrapassado modelo de sala de aula. O sistema educacional brasileiro não comporta mais salas de aula em estado ditatorial, em que o professor – soberano em sua função – representa um general posicionado em frente à tropa de alunos que, alinhada em cadeiras enfileiradas como se soldados fossem, devem total submissão aos argumentos apresentados pelo condutor da lição. Essa estrutura é baseada em modelo ditatorial de ensino, exatamente como ocorre com a tropa quando está em forma em um quartel aguardando a ordem do dia de seu superior.

Contudo, ao longo dos anos, percebemos que esse modelo não vem estimulando o debate e o desenvolvimento dos pensamentos críticos dos educandos. Ao contrário, tem provocado desestímulo no avanço da pesquisa e da argumentação por parte dos discentes. A cada dia, os alunos estão perdendo a sua característica fundamental de seres pensantes, para se submeterem à robotização, estampada em macetes e esquemas, que o atual sistema de ensino lhes disponibiliza. Com isso, a ausência de estímulo para que os estudantes pensem, reflitam e obtenham conclusões a partir dos dados apresentados ou pesquisados, estamos perdendo muitos talentos intelectuais que poderiam contribuir para um futuro melhor para o nosso país.

Em contraponto àquele modelo, podemos sugerir a adoção de um modelo de posicionamento de alunos em sala de aula em formato circular ou em “U”, em que o professor (que irá lecionar e mediar o debate) se posiciona no centro da convenção e todos os alunos têm que obter contato visual entre si. O contato visual será um facilitador para a abertura e estímulo do almejado debate. É nesse momento, que identificamos a personagem de olhar desesperançado que aparece na marcha fúnebre da educação brasileira, a representar os alunos que assistem às aulas e nelas, algumas vezes, não conseguem encontrar o estímulo necessário para acreditar que ali possa estar a mudança desejada quando se busca o conhecimento.

Em outro ponto, a colaborar para a marcha fúnebre de nossa educação, ainda temos a inaceitável violação à integridade moral e física dos professores brasileiros, em especial da rede pública, que se veem, de modo cotidiano, à margem de indivíduos que não guardam respeito por eles e ainda ignoram a proposta de melhorar a sua formação como cidadão. Neste ponto, o Estado é o primeiro a se fazer omisso, ao que surge na marcha fúnebre educacional para revelar o clima sombrio de solidão em que o professor se encontra, ao perceber que está desamparado, em face da displicência daqueles gestores públicos com aquela temática.

Ameaças e lesões corporais feitas a professores da rede pública de ensino, por exemplo, têm sido frequentes nos últimos anos, pois os agentes daquelas condutas percebem que o próprio Estado desrespeita e ignora a figura do educador, o que faz com que eles também passem a agir daquela forma, como se pudessem legitimar a sua conduta agressiva a partir da conduta estatal. Mas, não podem e nem devem! E nesse contexto, os pais de alguns daqueles alunos não tomam conhecimento do fato ou, quando tomam conhecimento, nada fazem ou saem em defesa do aluno, beirando o absurdo de acreditar que aquele tipo de conduta possa ter alguma justificativa.

Por completar a marcha fúnebre da educação brasileira, temos os professores que, em movimento de greve, marcham pelas ruas e avenidas de nosso país pleiteando todas as mudanças necessárias para a melhoria do sistema educacional brasileiro, além do justo salário que seja condizente com a sua função social na sociedade, ou seja, a de proporcionar a formação de melhores cidadãos. Entretanto, permanecem há anos caminhando em estado anestésico, sem qualquer gesto que consiga manifestar a sobrevida da esperança perdida anos atrás.

Nos países mais desenvolvidos que o nosso, o professor é tido como um dos profissionais mais respeitados pelos respectivos Governos, em razão da sua relevância social. No Brasil, porém, parece que estamos exatamente na posição inversa. Aqui, o professor é um dos profissionais mais desvalorizados pelo Governo, com baixíssimos salários e condições precárias para o exercício de seu ofício. Nas instituições privadas, a situação se apresenta melhor, mas na rede pública de ensino, paira a vergonha. Afinal, como pode um professor, no Brasil, sustentar a si e sua família e ainda possuir dinheiro suficiente para investir em cursos de aperfeiçoamento, em pesquisa, na compra de livros, etc., com o indigno salário que recebem? A resposta é simples: impossível!

Talvez o Governo não queira que o povo se eduque, pois governar um povo que tenha educação é muito mais complicado. Mas, talvez, alguns de nossos governantes ainda não saibam que para se tornar um bom professor, o indivíduo cumprirá anos de estudos, pesquisa, abdicação de tempo com a família e amigos, dedicação quase integral ao tema educacional e, ainda, obterá títulos, em especial para atuar no nível superior de ensino, tal como é exigido pelo próprio Governo (um real paradoxo). Mas, ainda assim, para o Governo esse profissional não vale mais do que um salário de R$1.000,00 ou R$2.000,00 por mês (quando o professor consegue, com muitas horas de aula, chegar a esse valor). Em contraposição, ironicamente, os slogans dos Governos sempre tentam transparecer para terceiros que somos um país preocupado com a educação. E aí, mais uma vez, a nossa história se repete e apenas preparamos tudo “para inglês ver”.

 

Professor Barragan, professor há mais de 10 anos, advogado, contador e mestre em Direito Econômico e Desenvolvimento.

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